30 junho 2006

Abaixo as costeletas!

Que venha o verao! Dezessete horas de insolacao por dia. Sol a pino. Temperaturas em torno de trinta graus. Brisa. Agua mineral. Muita gente nas ruas, nos parques e nas pracas. Pernocas, pancas e pes de fora. Tempo de sobra pra praticar esportes. E costeletas de porco com barbecue sauce pra jantar. Ninguem merece. Ninguem mesmo.

Aqui e assim. Muita gente se exercita pouco. Pouca gente pratica muito exercicio. A equipe de triatlo da cidade corre e nada com menos frequencia do que eu, pra voces terem uma ideia. Os maratonistas treinam duas vezes por semana, apenas. E pode apostar que a maioria deles simpatiza com todas as frituras e gorduras que sao comidas com frequencia por aqui. Uma pena.

Hoje em dia, gracas a alguns health-conscious britanicos, o tradicional cafe da manha ingles tem sido substituido por refeicoes mais leves, como cereal matinal e torradas, por exemplo. Embora ainda represente uma parcela importante no conceito ingles de refeicao matutina, alguns britons tem encarado os fry-ups como sendo uma refeicao esporadica, que aparece vez ou outra nos cardapios das residencias durante os fins de semana. Se o cafe da manha for acompanhado de suco de laranja e cha ou cafe em abundancia, ou mesmo se for composto apenas de bacon, ovos e torradas, costuma ser encarado como um inicio mais do que satisfatorio para um dia de trabalho ou lazer. Bem. Eu, particularmente, me satisfaco com um bom copo de leite.

Voltando ao fry-up. Os ingredientes variam de acordo com a regiao. A refeicao e composta basicamente de bacon e ovos, tradicionalmente fritos. Alguns dos ingredientes adicionais sao: torradas ou fatias de pao fritas, linguicas, tomates grelhados, cogumelos (grelhados tambem!), black pudding e baked beans. Alem dos hoteis - que preparam tudo isso para os turistas -, muitos greasy spoons (restaurantes pequenos, baratos e nada higienicos, especializados em frituras, que normalmente atendem a classe operaria) servem o tradicional cafe da manha ingles durante todo o dia. Bom pra quem gosta.

Aqui e assim. Um ou outro gato pingado liga pro que come. Como a esperanca e a ultima que morre, achei que o verao pudesse deixar os ingleses mais conscientes. Que nada! Balela! As cadeias de fast-food continuam lotadas. Na casa onde moro, por exemplo. De vez em quando temos salada a mesa. Quando muito, alface, tomates e pepinos. Em compensacao, comida oleosa e gordurosa e abundante. Sobram costeletas, bistecas e batatas.

A historia das costeletas de porco com barbecue sauce aconteceu mesmo. Os acompanhamentos eram espigas de milho e hash brown potatoes. Nem sinal de hortalicas ou verduras na geladeira, muito menos a mesa. Era domingo a noite, estava calor pra burro. Eu tinha acabado de chegar de um fim de semana natureba, regado a exercicios fisicos e muita agua mineral. Mesmo assim, jantei tudinho, nao tive como escapar. E fiquei emputecida. Nao posso negar.

Resultado? Estou de mudanca!

Beijao!
Juliana.

05 junho 2006

"Piqueniquei"!

Faltam dezesseis dias para o verao comecar oficialmente e tenho de confessar que ainda nao consigo confiar na previsao do tempo. Estava tentando organizar um piquenique desde o comeco deste mes, mas nao tinha conseguido relaxar e simplesmente arriscar. A falta de previsibilidade do clima incomoda os ingleses profundamente. Eu nunca tinha reparado nisso ate ler um dos livros de Marcello Rollemberg, no qual ele descreve - com muito humor e ironia - o quanto o imprevisivel incomoda uma nacao que tem mania de querer exercer controle sobre tudo. Nao sei dizer se ja estou incorporando algumas das excentricidades britanicas, mas essa incerteza toda me incomoda tambem. E muito.

Sabado passado os termometros indicaram 25ºC pela primeira vez em meses e todo mundo enlouqueceu. Os estoques de carne para churrasco dos supermercados acabaram em minutos. Os parques e pracas lotaram. Consegui - finalmente! - sair para o tal piquenique.

Tem gente que descreve Cheltenham como sendo a town within a park. Nao e pra menos: os parques, jardins e avenidas daqui sao bonitos mesmo! Entre muitas opcoes, escolhi Leckhampton Hill. E uma montanha que fica ao sul da cidade e pertence a uma area chamada Cotswolds. O lugar atrai muita gente, tanto residentes quanto visitantes. Por ser uma reserva natural, tem muito o que se ver por la: animais e flores selvagens, formacoes rochosas interessantes, alem de paragliders e uns gatos pingados fazendo piquenique, como eu. Todo o local e muito bem conservado tambem. Pelo que sei, voluntarios trabalham na manutencao da reserva pelo menos duas vezes por mes.

Seguindo os
conselhos da Fernanda, "piqueniqueira"-de-mao-cheia, comprei pao, queijo, salame, salada, azeitonas recheadas, suco de frutas e agua. Como nada pode ser planejado com muita antecedencia por aqui e piqueniques sao eventos mais do que descontraidos, tive que abrir mao dos guardanapos e da toalha, o que nao foi tarefa facil. Mesmo assim sobrevivi lambendo os dedos, embora nao seja a minha pratica favorita. E nao ofereci nenhuma resistencia a ter que subir e descer do monte, mesmo estando usando escarpins! Tudo muito brega para os padroes brasileiros, mas nada alem do que e normal por aqui. Pelo jeito mantive o padrao, ao ter me bronzeado vestindo camiseta tambem. Fui passear no calcadao no dia seguinte e pude perceber nao ter sido a unica. Ufa!

Neste mesmo dia jantei churrasco. Eu e a cidade inteira, a julgar pela quantidade de fumaca que eu conseguia ver de onde estava, sentada no quintal de casa. O primeiro desde que cheguei, diga-se de passagem. Churrasco aqui - sem contar hamburgueres e salsichas, claro - significa espetinhos de carneiro, sobrecoxas de frango, files de peixe e vinho branco. Nada proximo de cerveja geladissima e picanha mal-passada as quais estamos acostumados. Fazer o que, ne? Nao se pode ter tudo :)

Os dias continuam ensolarados e, pelo que tudo indica, teremos uma boa semana pela frente. Nada para se animar, claro. Para infelicidade geral da nacao - quase parafraseando Dom Pedro I no Dia do Fico - o tempo, meus caros, ninguem controla. Nem o mais conservador dos britanicos!

Um beijao. Estava com saudades!
Juliana.

18 abril 2006

I amsterdam®


Juliana.

07 abril 2006

British cuisine, sim senhor!

[Hot cross buns]

A comida da Gra-Bretanha* sempre teve uma reputacao pra la de duvidosa. Tambem pudera: quem se arriscaria a experimentar um negocio chamado tow'd in't th'ow (toad in the hole, num dialeto tradicional), sem ao menos saber do que se trata? Eu, nunca. O tal prato quer dizer - literalmente - Sapo no buraco. E o nome do pub que serve isso deve ser alguma coisa parecida com A Vaca, ou O Carneiro, ou algum outro assim, bem ordinario. Podem apostar.

Sapos e buracos a parte, toad in the hole e um prato ingles super tradicional. Tipico do norte da Inglaterra. Ja vi varias vezes por aqui, mas nunca imaginei que tivesse este nome. Nada mais e do que Cumberland sausages servidas dentro de um Yorkshire pudding, normalmente acompanhado de vegetais. Outros classicos ingleses sao: rhubarb crumble, marmite, Ploughman's lunch,
fish and chips e Cornish pasty, bons exemplos de comida boa com nome comum. Bem basico. Como tudo que e natural daqui.

Tenho certeza de que nenhum de voces sabe que os queijos ingleses estao entre os melhores do mundo. Superiores aos franceses, ate. A grande diferenca e que os franceses sabem vender os queijos deles. E a se vender tambem. Coisa que os britanicos estao muito longe de saber fazer bem. Nem existe uma palavra em ingles equivalente a "bom apetite", para voces terem uma ideia. E os pratos sao nomeados assim mesmo, sem atrativos. Enquanto os ingleses usam
custard para enriquecer as sobremesas deles, os franceses chamam o mesmo molho de creme anglaise. Chamam canapes de vol-au-vents. Cozido de cassoulet. Ensopado de bouillabaisse. Eles sao bons mesmo!

Thanks God hoje em dia e possivel encontrar comida decente por aqui. O pais e cheio de lojas de cadeias de fast-food, mas, gracas a influencia de paises como a China, India, Tailandia, Italia e paises mediterraneos, ja nao e mais tao dificil descobrir comida boa e barata em pubs e cafes.

A criacao do que e chamado de modern British cuisine tambem ajudou. No ano passado, uma revista de culinaria elegeu o restaurante do chef ingles Heston Blumenthal como sendo o melhor do mundo. Embora o dito cujo se chame The Fat Duck (ate os estrelados-Michelin tem nomes ridiculos, como voces podem ver), tem muito boa fama. Heston trabalha com o mesmo conceito da nueva nouvelle cuisine que o chef espanhol Ferran Adria - considerado um dos melhores chefs do mundo na atualidade - ajudou a divulgar internacionalmente.

Tem um negocio que esta super na moda tambem, chamado gastropub. Sao pubs especializados em comida de primeira qualidade, num nivel superior ao dos tradicionais pub grubs. A expressao foi criada em 1991, quando um pub chamado The Eagle (nada criativo, diga-se de passagem), em Londres, fez questao de enfatizar que a comida servida la era preparada nos mesmos padroes dos bons restaurantes da cidade. E tambem que, mesmo assim, a atmosfera descontraida era mantida. O equivalente na Franca sao as brasseries.

Ainda nao tive a oportunidade de experimentar tudo, mas ja tenho alguns favoritos - eu diria que alguns must-eats - para indicar a quem vier para os lados da terra da Rainha qualquer dia desses. Sao eles: gingerbread,
parsnip, goat's cheese, Eccles cakes, steak and kidney pie, Welsh cakes, black pudding e haggis. Todos cuidadosamente bem selecionados, claro. Tem que saber onde comprar, nao da pra sair comendo torta de bife e rim em qualquer lugar.

Ah, tem outra coisa curiosa aqui! Quando alguma data festiva se aproxima, os ingleses dao um jeito de colocar uma comida sasonal no meio da festa. Para indicar o comeco da Quaresma, por exemplo, na terca-feira antes da Quarta-feira de Cinzas, todos aqui comem panquecas. O dia e conhecido como Pancake Day. Elas sao preparadas para que todo o estoque de leite de ovos das residencias seja liquidado, ja que o prazo de validade destes alimentos e inferior ao periodo da Quaresma em si. Na Suecia come-se Semla. Na Italia, lasanha. Na Lituania, doughnuts.

A novidade da semana sao os Hot cross buns. Eu nunca tinha visto antes. Apareceram de repente, de um dia para o outro, e hoje lotam as prateleiras dos supermercados. E um paozinho doce, condimentado, cheio de uvas passas selecionadas e uma cruz feita de papel de arroz bem no meio deles. Historicamente, em paises cristaos, estes paes sao comidos na Sexta-feira da Paixao, ja que a cruz simboliza Cristo. Eu ganhei um e comi ontem mesmo, no horario de almoco. E estava otimo, mesmo assim!

Embora tenha nevado na semana passada, a primavera chegou de verdade. As ruas estao cobertas de narcisos - que chegam a enjoar, de tantos! - e, os dias, cada vez mais longos. E da-lhe protetor solar pra resguardar o rosto de todos os raios de sol, ja que a minha pele nao os ve faz tempo ;).

Um beijao!
Juliana.

*Com o passar dos seculos, a Gra-Bretanha evoluiu politicamente passando de paises independentes (Inglaterra, Escocia e Pais de Gales) a dois reinos que dividiam a mesma monarquia (Inglaterra e Escocia), e, depois, a uma unica ilha, chamada Reino da Gra-Bretanha. Esta configuracao durou ate 1801, quando da uniao da Gra-Bretanha com a ilha Irlanda. Formou-se, entao, o Reino Unido da Gra-Bretanha e Irlanda. Hoje em dia, depois da independencia de 5/6 da Irlanda em 1920 - a que hoje chamamos de Republica da Irlanda -, o nome completo do que chamamos carinhosamente de UK e Reino Unido da Gra-Bretanha e Irlanda do Norte. Ufa!

30 março 2006

Todos temos tempo

Eu falo sozinha. Falo mesmo, sempre falei. Falo alto, como se estivesse conversando com alguem. Enquanto passeio no calcadao, no tempo em que tomo banho, durante meu expediente no trabalho. Lembro que uma colega do meu curso de graduacao detestava sentar na carteira da minha frente durante os exames: eu falava comigo mesma o tempo todo e ela nao conseguia se concentrar.

Ontem foi um dia daqueles. Perdi o onibus logo cedo, debaixo de chuva e vento fortes. Meu cartao de credito foi debitado duas vezes na minha conta corrente. O Inland Revenue perdeu um formulario importante que mandei pelo correio. Recebi uma carta da companhia de seguros dizendo que o meu "medico de familia" nao responde aos pedidos dela. Uma pessoa querida nao quer mais falar comigo.

Tudo isso pra contar que fui caminhando do escritorio ate em casa praguejando. Tenho certeza de que falei todos os palavroes do mundo, ate aqueles bem feios que nem eu mesma gosto muito. Andei recentemente incrementando meu vocabulario tosco com alguns termos em ingles. Diria que foi uma xingacao anglo-brasileira, entao. Mas, mesmo tendo sido meio ignorante, me fez bem. Entrei no hall de alma lavada.

Ao checar as correspondencias, fui surpreendida por um envelope enderecado a mim. Daqueles brasileirissimos - bem tradicional mesmo - com faixas verdes e amarelas e tudo. Antes de olhar o remetente, perdi uns segundos tentando adivinhar de quem poderia ser. Desisti rapido, tive medo de errar. Afinal, mais de uma amiga tinha me prometido escrever cartas. Mas so uma realmente escreveu. E e exatamente sobre isso que quero falar aqui.

Acabei de terminar de ler a edicao 51 da
Revista TPM, cujo tema foi o Tempo. Nela, fala-se em velhice, morte, em como nos escondemos atras de uma suposta falta de tempo pela "falta de coragem de assumirmos nossa vagabundagem". Adorei esta frase. Copiei da Nina Lemos, nao pude evitar. Como ela, nao tenho duvidas de que todos nos trabalhamos bastante. Mas tambem tenho certeza de que todos temos tempo, sim.

A tal da carta tem quatro paginas. Minha amiga, dois empregos, casa, familia. E disposicao suficiente para escrever, coincidentemente, sobre o Tempo. Sobre as folhas do papel de carta que, de tao velhas, estao amarelas. Sobre termos nos acostumado com a impessoalidade do dia-a-dia. Sobre nao pararmos um minuto sequer para pensarmos na vida. Sobre termos caibras nas maos por termos perdido o habito de escrever sem a ajuda de um teclado de computador. Sobre rotina. Sobre saudades.

Eu sou do tipo que valoriza coisas simples. Nesta semana foi a carta, na semana passada um calendario. Ja recebi camiseta, cds, cartoes postais, cartoes de Natal. Todos vindos de amigos que trabalham muito. Mas que nao precisam mentir que estao sem tempo pra nada so porque e cool e bem mais facil do que escrever uma carta com quatro paginas.

Um beijo grande, fiquem bem!
Juliana.

04 março 2006

Gente esquisita

Ta bom, ta bom. Admito. Ate que e legalzinho morar no Brasil. A gente sente isso principalmente depois que passa um tempo fora. O contraste da falta de cerimonia com a qual estamos acostumados la e bem grande com relacao a toda a formalidade que temos aqui no Reino Unido.

Um bom exemplo sao os tais "sorry" que ouvimos o tempo todo. Na fila do supermercado, numa andanca no calcadao, dentro do onibus. Os ingleses sao tao paranoicos com essa coisa de se desculparem o tempo todo por tudo, que o negocio ja e automatico: mesmo que voce pise sem querer no joanete deles, sao eles que te pedem desculpas. Com cara de choro e tudo. Chega a ser patetico. Como e um ato inconsciente, da pra perceber que a reacao nao tem um pingo de emocao, ou seja, eles nao sentem muito por nada, so estao seguindo mais uma das regras de boas maneiras que aprenderam na infancia. Pra falar a verdade, acho que pisariam no teu calo se pudessem. De proposito.

A gente percebe isso quando algum deles se enche e solta a franga pra se libertar. Eu acho que no fundo no fundo nem os britanicos gostam muito de serem tachados de integros e irrepreensiveis. Queira ou nao, a carga emocional que vem junto com a obrigacao de serem perfeitos e grande, e nem todo mundo lida bem com isso. Um bom exemplo sao os desordeiros hooligans, que libertam adrenalina agindo com violencia contra torcedores do time adversario. Embora sejam agressivos num ambiente sobre o qual tem controle, podem apostar que fazem parte do rol dos que se desculpam ao te empurrar sem querer na fila do banco.

E engracado perder um tempo reparando nos contrastes do comportamento deles. Minha caderneta e cheia de topicos relacionados a isso: nao me canso de passar uma tarde por semana numa coffee shop, lendo meus livros e reparando na maneira como eles agem. Da pra colher um material e tanto, sem ter que se esforcar muito. Ao mesmo tempo em que sao cheios de normas de etiqueta, nao hesitam em enfiar a mao na boca e cavocar ate encontrar a alface que ficou presa nos dentes, provavelmente desde a hora do almoco. Nem pensam duas vezes antes de fazer isso na tua frente. Nao se preocupam em disfarcar ao limpar as maos na calca, nem ao comer de boca aberta, nem ao assoar o nariz. Um horror.

Aqui nao se tem o habito de usar guardanapo durante as refeicoes. Como ja sei de antemao, carrego comigo papel-toalha pra mesa, ja que e a unica opcao disponivel. Deve ser alguma coisa como tomar banho de banheira, outro costume que nao entendo. Os ingleses devem nascer com um opcional que os ensina a gerenciar essas duas coisas bem: por mais que eu tente, nao consigo fazer um, nem outro direito. Tenho certeza que e porque nao sei o jeito certo.

Tem outra coisa que - pelo visto - e um habito por aqui. Eles usam lencos de pano para assoar o nariz - o mesmo que limpa as maos e as frutas na hora do almoco -, o que nao e muito comum ai no Brasil. A parte curiosa e que nao guardam o lenco no bolso, mas sim dentro da manga da camisa. Todo embolado, um negocio muito estranho mesmo.

Como os ingleses sao um povo esquisitao, com habitos esquisitoes, nada mais obvio que tenham atitudes esquisitonas tambem. Bom pra mim que, a cada domingo no
Starbucks Coffee Company, encho meu livrete com mais ideias de posts para atualizar o "Comida Nao Entra" ;).

Beijos para todos!
Juliana.

PS Aqui no hemisferio norte, primavera e horario de verao a vista, nem acredito
!

25 fevereiro 2006

Coisa de crianca

*Este Post foi publicado originalmente no o.quindim.

Faz dias que tenho exaurido meu cerebro procurando a origem da minha paixao pela gastronomia, mas nao tenho tido sucesso: boas lembrancas me vem a memoria, mas nao tenho conseguido precisar o exato momento de quando a minha apatia deu lugar a todo esse encanto, que me faz cravar os olhos dentro da cozinha de um restaurante quando algum garcom descuidado esquece a porta aberta.

Ja e seculo 21 e uma das minhas avos ainda cozinha em fogao a lenha. Ela e neta de italianos e, embora nunca tenha tirado o pe do Brasil e tambem tenha um fogao a gas na cozinha, ainda conserva algumas caracteristicas bem marcantes no que diz respeito a culinaria: faz polenta no tacho, pao caseiro, usa ingredientes sazonais (todos vindos do quintal enorme que ela tem em casa), da preferencia a cardapios tradicionais ao inves daqueles cheios de novidades e iguarias da moda. Uma maluquice, a julgar pelo tanto que temos evoluido nos ultimos anos, quando se fala de de gastronomia ou mesmo de cozinha regional.

Ao contrario de todas as avos que conheco, nunca teve na cozinha os seus melhores predicados. E cheia de boas intencoes, mas tem coisas que prepara que nao consigo provar nem com reza braba, mesmo sendo super curiosa com relacao a comida. Lembro de uma vez - quando ainda era crianca - quando tive que fazer um sacrificio para experimentar cascas de batatas fritas, e de tentar encontrar alguma similaridade entre as tais cascas com as proprias batatas. Foi impossivel, aquilo pra mim eram cascas e pronto. E olha que sou pouco exigente com batatas fritas, ja que nem sou fa. Com certeza nao foi dai que herdei o paladar refinado. Mas foi na horta e pomar sempre bem conservados que aprendi a colher cenouras e rabanetes, a identificar um pe de alecrim entre os de salvia, a apanhar morangos e figos, a diferenciar aracas de guabirobas. Ja comi cereja e ervilha torta colhidos no mesmo instante. Ja fritei ovos recem-postos. E a minha infancia inteira foi assim: entre pes de tomate e o galinheiro, entre a serraria (de onde vinha a lenha que abastecia o fogao) e massas de pao.

A primeira comida que aprendi a fazer sozinha foi arroz branco. Eu cozinhava o tal arroz para acompanhar um frango xadrez que o meu pai preparava, quando tambem comecou a se aventurar na cozinha, muito antes de ser o gastronomo que e hoje. Foi ai, tambem, que ganhei meu primeiro livro de culinaria. Lembro que, mesmo sendo crianca, achei meio simples demais: pra quem ja aprontava comida fresquinha, preparada no fogao, os sanduiches de atum pareciam muito pouco desafiadores. Naquela epoca eu so tinha sete anos de idade, nos dois evoluimos muito desde entao. O frango xadrez ainda da o ar da graca de vez em quando. Mas eu ja fui "promovida" ha muito tempo: tenho outras responsabilidades - como preparar a entrada ou a sobremesa - em vez de apenas tomar conta do tal arroz.

Desde aquela epoca meu interesse pelo mundo da cozinha so cresceu. Nao me contento mais em preparar um prato sem conhecer um pouco sobre a historia dos alimentos, sobre a origem de cada uma das iguarias que constituem a refeicao. Embora tenha dezenas de livros de culinaria, continuo abastecendo a minha biblioteca com compras impulsivas. Leio revistas que tem como publico-alvo donos de restaurante, bibliografias de cozinheiros, flogs escritos por outros gastronomos caprichosos. Sou criteriosa ao escolher um lugar pra comer. Nao como nada que seja sofrivel ou insosso. E por ai vai.

E foi assim. Desde ajudar a ajudar a escolher feijao ate fazer massa de talharim em casa, fui, aos poucos, me apaixonando. Nao sei dizer quando isso aconteceu exatamente, mas nao me importo. Ja sou bem feliz assim!

Juliana.

24 fevereiro 2006

Repeteco

Londres continua deslumbrante. Como sempre.

Juliana.

21 fevereiro 2006

I'm lovin' it

[Loja de artesanato em Camden Lock Market]

Mc Donald's que me desculpe, mas fui obrigada a pegar o slogan emprestado. Cada vez que vou a Londres e assim: sinto falta de ar, tenho tremedeira, palpitacao, meu coracao dispara. Sintomas de transtornos mentais e panico? Nao, nao. Amor mesmo. E olha que ja dura - pelo menos - sete anos!

Apesar de morar a apenas cem milhas de distancia, minhas idas a Londres nao sao muito frequentes, infelizmente. Parece bobagem minha, mas no final das contas o pacote todo acaba ficando muito caro mesmo: um tiquete de metro (mais onibus e trem) para viajar um dia todo nas zonas centrais da cidade, custa metade da minha passagem de onibus para la; opto por ir de trem as vezes, e acabo pagando mais caro pelo conforto e pela uma hora a menos de percurso; os hoteis sao outra grande despesa, chega a ser um sacrificio pagar tudo aquilo. E por ai vai: nas atracoes turisticas, no museu mais desqualificado, no espetaculo mais requintado, em tudo se desembolsa alguma coisa. E num pais onde se paga caro ate por agua mineral, podem apostar que qualquer custo adicional e capaz de desfalcar orcamentos.

Tirando a parte de quase me levar a bancarrota - "Londres e um mau habito que se odeia perder", como disse um Anonimo qualquer -, ela inspira, ilumina, diverte, emociona. Embora ja tenhamos bastante intimidade uma com a outra, ainda leio guias, ando com mapas na bolsa, descubro coisas novas. Na semana passada, por exemplo. Passei o sabado em
Camden Lock, que e um mercado que vende de tudo: roupas usadas, objetos antigos, artesanato, utilidades domesticas, bijuterias, livros, pirulitos de maconha, comidas enlatadas vencidas. Alem de ter a maior concentracao de punks por metro quadrado da cidade.

Camden e o tipo de lugar onde eu poderia passar a tarde toda sentada num banco de praca, lendo um livro e observando o ambiente. No pouco tempo em que fiquei sentada almocando, por exemplo, consegui perceber que as pombas de la sao mais alienadas que as de Cheltenham. As que temos aqui tambem sao meio doidas, nao posso negar. Um dia eu estava andando na calcada - voltando do trabalho - e uma dessas loucas ficou se trancando no meio das minhas pernas: tanto reinou em volta de mim que acabei dando um chute nela. Sem querer, mas chutei. E ela ainda ficou me olhando com aquela cara de quem nao gostou. Ah, me poupe.

Entao. As pombas de Camden ja sao mais atrevidas: tentam "decolar" e levar os guarda-sois da praca de alimentacao junto com elas. Como nao conseguem, claro, aterrisam de volta no colo de quem esta almocando sentado embaixo deles. Ou elas sao cegas, ou retardadas, ou e coisa daquele tal pirulito. Mas burras elas nao sao. Sao pombas, eu mesma vi.

Tem outro lugar que eu adoro em Londres, e que, por coincidencia tambem e um mercado. Covent Garden Market e muito mais elegante: tambem tem pombos, mas mais civilizados. E, ao inves de barracas de bugigangas, e cercado de lojas, cafes, restaurantes e artistas de rua. La e o tipo de lugar pra ir sem pressa, porque provavelmente se perde a tarde toda: freneticos nao tem vez no Central Market. O ideal, mesmo, e conseguir uma mesa. Elas sao disputadissimas, mas vale o sacrificio de ficar em pe esperando. Estando sentado (do lado de fora do restaurante, por favor!), e obrigatorio tomar vinho espanhol, comer queijo frances, pensar na vida. E ficar la um tempao, senao nao tem a minima graca. Se der sorte de ter alguns musicos se apresentando pelas redondezas, melhor ainda. As bandas nem sao das melhores, mas a atmosfera e tao magica que ninguem perde tempo analisando se elas sao harmoniosas ou nao. E olha que nem e culpa do vinho. Falo por experiencia propria.

E tai um pouquinho de Londres. Que tambem tem engarrafamentos, linhas de metro que sao fechadas para manutencao nos finais de semana, velhinhos mal-educados (sim, sim, eles estao por aqui tambem, qualquer dia vao dominar o mundo!), guardas municipais simpaticos, pombas malucas, camelos cor-de-rosa. Camelos? Ah, sim. Eu tinha um vizinho paulistano que dizia que Sao Paulo e legal, porque la e possivel encontrar um camelo cor-de-rosa pra vender, a qualquer hora do dia, inclusive no meio de madrugada. Na capital britanica tambem podemos encontrar o tal camelo com facilidade, mas com uma pequena diferenca: em vez de um so, a gente encontra uma cafila. Afinal, como nao poderia deixar de ser, Londres e mesmo a cidade mais cosmopolita do mundo!

E a sortuda aqui nao poderia estar escrevendo em melhor hora: amanha bem cedinho pego o trem para Londres. Vou passar o dia todo trabalhando la, mas nao me importo: vou me arrumar bem bonita mesmo assim. E o minimo que ela merece!

B-e-i-j-o!
Juliana.

16 fevereiro 2006

Nao confie em ninguem com 32 dentes

Ainda tenho pouco tempo morando na Europa para conseguir identificar com precisao qual e a descendencia de qualquer nao-ingles que troque apenas duas palavras comigo. Na verdade, acho que se tivesse que tentar adivinhar, acertaria apenas o continente de onde ele veio. E so.

No mes passado, tive um jantar "de trabalho" num restaurante italiano em Stamford, Lincolnshire (momento cultural: por Stamford ser uma cidade medieval e ainda preservar muitas construcoes daquela epoca, a cidade tem sido usada como cenario para alguns filmes bem hollywoodianos - como por exemplo
Pride and Prejudice e The Da Vinci Code). Um dos associados - que e ingles e muito bom nessa coisa de observar pessoas! - me desafiou a adivinhar a origem da garconete que estava nos atendendo. Levei o jantar inteiro procurando evidencias no comportamento e na aparencia dela, mas preferi perguntar pra nao errar: ela era mesmo sul-americana como eu suspeitava, vinda do Equador. Tinha conseguido identificar o sotaque, mas nao soube dizer ao certo se era espanhola ou brasileira. Se julgasse pela aparencia, diria que era mexicana. Este cenario e muito comum por aqui: estrangeiros trabalham em qualquer buraco que voce vai.

No comeco de janeiro passei um final de semana em Londres, durante o periodo das liquidacoes pos-Natal. Mesmo estando com meu alter-ego consumista adormecido, arrisquei dar uma passadinha na
Selfridges para dar uma olhada nas promocoes: serviu para confirmar que, mesmo com 70% de desconto, meu saldo bancario jamais comportaria uma compra em algumas das lojas de la. Lembrei disso porque tive que atravessar a loja para chegar na Miss Sixty, da qual sou fa incondicional e a qual nao deixo de dar uma visitadinha basica. Nem que seja pra ter certeza de que nao e pro meu bico.

Ao perambular pela loja, tive a nitida impressao de que estava na India: via indianos por todos os lugares. Nas lojas de perfumes, de roupas, nos cafes. Nao sei dizer se os que penso que sao indianos sao indianos mesmo, ou praquelas bandas de la (Paquistao, Afeganistao, etc.) eles parecem ser todos iguais como no resto da Asia. So sei que nao vi nenhum ingles trabalhando. So estrangeiros.

No final do ano passado fui a um restaurante mexicano com duas amigas. Depois de passarmos horas falando alto e gesticulando sem parar, um garcom brasileiro apareceu e se apresentou. Mesma coisa aconteceu em algum domingo do mes passado: toda a equipe do bistro onde eu estava almocando era brasileira. Da faxineira ao gerente. E por ai vai. Ja aconteceu de eu estar fazendo compras no supermercado e escutar dois funcionarios (brasileiros) falarem mal do chefe, por exemplo. Ate pensei em me divertir um pouco e interromper a conversa para perguntar se eles poderiam me ajudar a encontrar o acucar de baunilha que eu estava procurando, mas deixei quieto. Melhor assim.

Mesmo sendo muito observadora, descobri que as unicas especies que consigo reconhecer no meio da multidao sao os ingleses. Eles tem duas caracteristicas muito marcantes: se vestem mal e tem dentes feios. Coisa do tipo que nem o inverno disfarca (conseguem estragar o visual ate nos acessorios). Um bom exemplo? Gravata estampada com raposas, camisa xadrez e duas abotoaduras diferentes: uma de porquinho e outra de peixinho. Tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Gracinha, nao? Me avisem o dia em que virem um italiano vestindo uma combinacao dessas...

Meses atras li no Financial Times que os dentistas ingleses sao os mais bem pagos do mundo. Nao e pra menos: pra mim os britanicos tem os dentes mais mal cuidados que ja vi na vida. Isso quando tem dentes, porque todo mundo por aqui tem um ou dois deles faltando. Nenhum dos Titas teria problema em encontrar alguem em quem confiar: podem apostar que ninguem tem 32 dentes por aqui, a nao ser os indianos da Selfridges e os brasileiros do Tesco. Nestes dai acho que nao da pra confiar mesmo...

Beijo grande e bom fim de horario de verao pra voces!
Juliana.

25 janeiro 2006

Si fueris Romae, Romano vivito more, si fueris alibi, vivito sicut ibi

"Quando em Roma, faca como os romanos fazem". Foi o que St Ambrose disse para St Augustine no seculo IV, antes que o negocio todo caisse na boca do povo. E aqui estou eu, dezessete seculos depois, usando a versao original - do que agora e um proverbio bem popular - para nomear a entrada desta semana no meu Blog.

Os romanos ainda se fazem muito presentes por aqui: deixaram vestigios por todos os lugares da Inglaterra, coisa da epoca do Imperio Romano. As provas mais evidentes sao as roman roads, o que nao e uma surpresa: por razoes militares, comerciais e politicas, os romanos se especializaram na construcao de estradas. Elas foram essencias para o desenvolvimento do Imperio, ja que permitiam que os exercitos se deslocassem rapidamente de um ponto a outro. Alem disso, ajudaram a sustentar o mercantilismo romano por facilitarem o transporte terrestre. E foram elas - tambem - que originaram aquele outro proverbio, bem conhecido: "Todos os caminhos levam a Roma".

E levam mesmo. As estradas romanas foram desenhadas na direcao de Roma: o objetivo era impedir que as provincias se unissem e resistissem contra o Imperio. Todas foram muito importantes em manter sua estabilidade e expansao, e algumas sao usadas ate hoje, um milenio depois. Eu mesma ja passei por muitas delas. O que deu errado foi que, na Antiguidade, as mesmas estradas facilitaram a invasao dos barbaros, e, consequentemente, o recuo dos romanos.

Na verdade o objetivo nao e falar sobre o Imperio Romano, mas sim do quanto incorporei o meu lado britanico no domingo passado. Fiz como os britanicos fazem, nao como os romanos. Embora o dia ensolarado nao tivesse nada de ingles, assumi o meu lado elisabetano e fui a um pub bem popular com alguns amigos, assistir a um jogo de futebol. Nada menos que um classico: Manchester United e Liverpool. Quase um Atletiba!

Como ja estava la mesmo e tinha que entrar no clima, nao deixei de tomar cerveja. Melhor. Tomei shandygaff, ou shandy: um coquetel feito da mistura de cerveja (quase sempre inglesa) e uma bebida nao-alcoolica (aqui na Europa eles usam refrigerante de limao). As proporcoes dos dois ingredientes sao ajustadas de acordo com o gosto do fregues, normalmente meio-a-meio, embora o shandy industrializado seja tipicamente mais fraco (aproximadamente uma medida de cerveja para dez de refrigerante). Na Bavaria, a mesma bebida e chamada de russ.

Para minha decepcao, o
Hog's Head nao tem clima de pub. E super iluminado, bem moderninho, diferente de todos os outros em que ja estive, tanto na Inglaterra quanto na Escocia, e ate mesmo no Brasil. Nao posso evitar, e automatico: relaciono pub com dificuldade para ler o cardapio pela falta de iluminacao, com um cara sentado la no canto bebendo horrores e conversando com a garconete do balcao, com garcom grosso e mal-educado, com banheiro sujo, enfim, com todo o conceito do qual os britanicos se orgulham de ter construido ate hoje, inclusive com o de eles serem os maiores beberroes do mundo. Falando nisso, como se bebe por aqui! Meudeusdoceu! Neste pais (adoro esta expressao, aqui se usa muito) ninguem fica um dia sequer sem tomar pelo menos meio litro de cerveja. E olha que falo por experiencia propria: nem queiram saber o que encontro pela rua todo dia de manha, a caminho do trabalho...

De volta ao Hog's Head. Montes de ingleses e inglesas, uns de pe, outros sentados, mas todos, todos mesmo, bebendo e fumando enlouquecidamente. Na minha mesa, nenhum bebado e nenhum fumante. So gente de toda parte do mundo: eu, minha colega brasileira, dois eslovacos, um espanhol e um... Ingles, claro. Nao poderia faltar. Sobre o jogo? Manchester United marcou um gol no ultimo minuto do segundo tempo. Um dia depois de eu ter adotado o Liverpool como sendo meu time ingles. Fazer o que, ne? Acontece.

Sobre a experiencia, St Ambrose que me desculpe, mas tenho minhas limitacoes: gosto de futebol, de cerveja, do humor sutil, mas nao consigo - mesmo - ficar sem escovar os dentes depois do almoco. Nem comer bacon pela manha.

Ah, curiosidade: fiz um paralelo, foi inevitavel. Comparando minha mesa no boteco com a feira de sabado, fico ainda mais fa desse nosso mundo globalizado: figos e damascos turcos, bananas vietnamitas, tamaras iranianas, caquis israelenses, e, macas. Inglesas, claro. Nao poderia faltar.

Por aqui tudo na mesma: muito trabalho, muitas viagens, muitas Roman roads pelo caminho. Ja tem amanhecido mais cedo e anoitecido mais tarde, coisa que a minha sanidade mental agradece. Ainda temos frio, o que nao e novidade. Nao temos previsao de chuva. Isso sim, e novidade!

Um beijo, fiquem bem!
Juliana.

17 janeiro 2006

Patricinha? Eu?

De todas as minhas amigas queridas, muitas me acham patricinha. Outras me acham feminista. As que sobraram nao acham nada disso. E se eu perguntar vao me mandar catar coquinhos.

Comecei a pensar nisso depois que li a entrada mais recente no
Blog pessoal da Fernanda (Guimaraes Rosa, a mesma do Chucrute com Salsicha). O assunto tinha a ver com o ziper de uma calca dela, que fechava do lado errado. A questao era essa mesma: sera que o ziper estava costurado do lado errado? Ou sera que, por alguma razao que ninguem sabia qual era, ele estava costurado certo? So sei que la pelas tantas me vi checando os ziperes de todas as minha calcas de trabalho para ver se eu entendia do que ela estava falando. E descobri que pelo menos um deles fecha do lado esquerdo! Eu, hein!

Quem diria. Eu, euzinha, da calca jeans e camiseta branca, vestindo calca social todo dia. Mas nao e por gosto nao, e por pura obrigacao: me acho muito artificial naquilo tudo. Tenho muito mais criatividade para me arrumar num jeans (brasileiro, c-l-a-r-o!) do que numa calca de linho. E podem apostar que fico muito mais bem vestida. Calcas jeans sao muito versateis, sou fa mesmo. Combinam com sandalia, bota ou tenis. Com noite ou dia. Com festa. Com dia de ficar em casa. Com rock, pop ou musica classica. Com teatro ou jogo de futebol. E com meu santo-rimel-de-todo-dia! Definitivamente, tem tudo a ver comigo.

Nao faz muito tempo comecei a ler revistas de moda. Desde entao, tenho usado mais acessorios, salto alto, maquiagem, decote. Tambem me apaixonei por uma designer de bijuterias paulistana, por calcas com strecht, por sutias de um determinado modelo, por batas, por sunquinis. Mudei o corte e a cor do meu cabelo e o formato da sombrancelha. Nunca deixei de ir a manicure uma vez por semana. Nem de ter uma nocao do que esta na moda. Pra nao fazer feio, ne?

Tai. Por isso mesmo e tao dolorido ter que usar calca de alfaiataria todos os dias. As opcoes de variacao sao tao poucas, que quase posso chamar de uniforme. Mesmo assim, nao posso reclamar muito: sempre consigo dar um toque pessoal no final, ainda que muito discreto. Dia desses estava vestindo calca, camiseta e sapato pretos, casaquinho de veludo cor-de-rosa, e meia... Cinza de bolonas coloridas! Ah, agora sim! Esta sou eu! E querem saber? Sou patricinha mesmo!

Tambem tenho lido uma determinada revista super-feminista. Por coincidencia, uma das colunistas escreve um dos dos
Blogs que leio regularmente. Adoro a revista, sempre que alguem vem do Brasil traz pra mim. O conteudo e excelente: textos bem escritos, assuntos bem selecionados, enfim, material interessante e de boa qualidade. As materias variam entre politica, valores, personalidades, nao necessariamente nesta ordem. E as vezes tem uma tendenciazinha feminista sim, nao posso negar. A diferenca e que, quando os colunistas pegam pesado na historia de queimar sutias, nao acho eles tao legais assim.

Ser dona do meu nariz e adorar ser livre nao me impede de desejar ter, um dia, uma familia igual aquelas que vemos nos comerciais de margarina. O que muita gente confunde e exatamente isso: independencia com auto-suficiencia. Ser determinada nao significa aguentar qualquer tranco: sempre gostei de abraco, de cafune, de deitar no colo. E, como em todos os extremos, toda feminista e meio burra, ne?

Sendo assim, erra quem acha que pode me encontrar numa passeata mulheres-unidas-jamais-serao-vencidas qualquer dia desses. Alem do mais, nao vou sair por ai queimando os meu sutias a toa. Eles sao de um determinado modelo, e estao super na moda!

Beijo pra todos, pisem no mar por mim!
Juliana.

12 janeiro 2006

Mistletoe europeu

[European mistletoe attached to a poplar]

Pra variar, muita coisa pra contar: fiquei pensando se falava sobre o meu cardapio de Ano Novo, sobre a saudade que sinto do mar, sobre o quanto os ingleses bebem. Fora o assunto da cozinha da minha acomodacao que, embora ja tenha sido prometido, ficou para segundo plano. Ja contei que ando com uma caderneta na bolsa para anotar tudo que vou lembrando de escrever no Blog? Pois e. Ando. Para ter certeza de que nao vou esquecer de contar nada.

No dia em que cheguei aqui na Inglaterra um dos meus diretores foi me buscar em Londres. Viemos de carro, o que significa que durante a viagem recebi informacao suficiente para preencher toda a minha caderneta. Eles sao muito ligados em Historia por aqui: todo mundo sabe pelo menos um pouquinho, e contam tudo sempre com muitos detalhes e orgulho. Da gosto e ver. Da vergonha de ser brasileiro e nao saber nada sobre o assunto.

Neste mesmo dia, entre tantas paisagens diferentes e conexoes com a cultura local, me mostraram uma arvore (ja sem folhas por causa do outono) com um arbusto que tinha crescido no meio dela. Me explicaram o que era, mas nao entendi nada: eu ainda estava ligada no Brasil, nao tinha me conectado por aqui. Afinal, minhas malas ainda estavam feitas! So sei que falaram um tanto, concordei outro tanto, e depois de tantos "Bla-bla-blas" e "A-hams" o assunto ficou por isso mesmo. Nunca entendi o que aquelas folhas estavam fazendo la, embora tenha ficado intrigada.

Depois de ter entrado na rotina e comecado a circular pela cidade, reparei que muitas arvores tinham a mesma caracteristica do que aquela: nenhuma folha, e um arbusto super-desenvolvido no meio dos galhos, bem no alto. Ficava cada dia mais emputecida por nao ter prestado atencao no que tinham me falado. E por ter concordado com a explicacao o tempo todo, ao inves de ter dito que nao tinha entendido absolutamente nada. Irritante.

Muitos arbustos depois, quando o assunto ja estava quase esquecido, tive um reuniao na vespera da vespera de Natal na casa do meu outro chefe (em Marlow). Alem de ele ter um arbusto crescendo na arvore em frente a casa dele - o mesmo que me mostraram da outra vez, ou seja, o responsavel pela curiosidade que estava me matando - ele tinha um deles dentro de casa. A esposa dele tinha colhido umas folhinhas, amarrado com um lacinho, e la estava o chumacinho cheio de folhas bem verdinhas, pendurado a 30 centimentros da minha cabeca! Nem precisei perguntar nada, ja foram me explicando por conta propria mesmo.

Me enfiaram embaixo da plantinha - que estava pendurada no teto do hall de entrada - e me deram um beijinho. E eu fiquei la, com aquela cara de quem nao entendeu nada, esperando que me contassem (de novo!) o que era aquilo. Prometi pra mim mesma que nao ia sair de la sem uma boa explicacao.

Bem. O tal do tufo se chama mistletoe. E um nome comum para varios tipos de plantas parasitas de duas familias diferentes, e originalmente aplicado a uma especie nativa da Gra-Bretanha. Embora seja engracadinho, nao deixa de ser uma parasita: pode ate matar a arvore onde cresce, se a infestacao for grande. Os passarinhos sao os responsaveis pelo plantio: eles se alimentam das sementes e evacuam nos galhos. Elas ficam coladas la e se desenvolvem.

Hoje em dia, mistletoes sao usados na decoracao de Natal. O mesmo Viscum album (nome cientifico) que falei ai em cima. De acordo com um costume local, quando duas pessoas se encontram debaixo de um maco de mistletoe sao obrigadas a se beijar. A origem disso tudo esta relacionada com a estoria do deus Bladur, que foi assassinado com uma arma feita de mistletoe (ele morreu envenenado). Dizem que ele voltou a vida porque sua mae Frigg (deusa do amor) removeu o veneno com suas lagrimas. Quando Bladur acordou, ela beijou todo mundo que passou embaixo do arbusto, demonstrando felicidade e gratidao. E dai comecou o costume!

Bem, vou ficando por aqui. Ja e tarde e ainda estou conectada, mesmo estando morrendo de sono. Ainda assim, nao consigo resistir aos meus surtos de inspiracao: sao mais fortes do que eu. Seria capaz de ficar escrevendo por horas, tamanho o prazer que me da!

Beijo grande, estou com saudades!
Juliana.