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16 abril 2011

12 abril 2011

Nada de estereótipos, por favor!

Desde que me mudei para a Europa, há cinco anos e meio, sou freqüentemente lembrada, sempre com muito desgosto, de que venho de um país em desenvolvimento, e que meu sangue não é tão azul como os felizardos que nasceram em países desenvolvidos. O tipo de abordagem depende do interlocutor, obviamente, mas a mensagem é quase sempre a mesma: a de que sou proveniente de um lugar nada sério, como Charles de Gaulle descreveu uma vez.

Tudo começou em 2005, quando emigrei para a Inglaterra. Ali mesmo, na imigração, tive que me submeter a uma radiografia dos pulmões, para provar que não tinha tuberculose, e daí sim poder entrar no país e ficar. O curioso é que, em Portugal, membro da União Européia, a taxa incidência da doença é tão grande quanto no Brasil, mas nenhum português precisa fazer o mesmo teste. Já a Inglaterra, onde uma nova vacina está sendo testada, apresentou um aumento de 25% nos casos de tuberculose nos últimos dez anos. A magnitude da doença é mundial, mas não adianta: alguém tem que pagar o pato. E que sejamos nós, os "pobrezinhos" do Terceiro Mundo.

Os campeões de encheção de saco são as companhias aéreas. Quando fui à Itália, em 2009, quase não consegui embarcar de volta para a Noruega porque a funcionária da SAS achou que eu deveria voltar ao Brasil, e não continuar na Europa. Na última vez que fui à Inglaterra, em 2010, quase não consegui embarcar, porque a mocinha da British Airways não se convenceu ao ver minha passagem de volta para a Noruega a partir da França, voando SAS. Cada vez que volto da França e despacho minha bagagem, as atendentes da SAS me questionam sobre o que venho fazer na Noruega e se tenho visto para entrar aqui, mesmo não sendo obrigada a ter um se o meu objetivo for apenas visitar.

Nos guichês de imigração, quase tudo igual. Mesmo tendo vivido dois anos e meio na Inglaterra, só entro no país se tiver uma carta-convite assinada por alguém que mora legalmente lá. Na França, uma amiga minha foi ridicularizada quando viajava com o namorado europeu. Quando viajei aos Estados Unidos a trabalho no ano passado, mesmo já tendo entrado e saído do país como turista em 1995, tendo comigo meu passaporte brasileiro com um visto americano e dois vistos europeus válidos, mais uma carta do meu empregador explicando o motivo da minha viagem, detalhando o itinerário e informando meu salário anual, fiquei mais de uma hora presa numa sala com mais um bando de viajantes. Só fui liberada depois de ser entrevistada por um policial, que pareceu me fazer um favor ao me deixar entrar no país.

Aqui na Noruega, quase tudo se repete. Tive que fazer a mesma radiografia dos pulmões quando cheguei em 2008. Ainda não tive nenhum incidente com a imigração, até porque moro e trabalho aqui e tenho visto de residência no país. Mas foi ao me cadastrar como doadora de sangue no país que veio a maior surpresa: por ser brasileira, não sou qualificada para doar sangue. E tampouco qualificada para o "SUS norueguês" me ajudar, se alguma coisa acontecer comigo enquanto estiver viajando pela Europa, como acontece para todo e qualquer imigrante de outro país da comunidade, que trabalha e paga impostos na Noruega tanto quanto eu.

A ignorância e arrogância também atinge pessoas que convivem comigo, o que me deixa mais atônita. Recentemente escutei da mesma pessoa, mais de uma vez, que venho de um país pobre e subdesenvolvido, onde pessoas morrem e são roubadas nas ruas. Ora. Que o Brasil tem problemas, todo mundo sabe. E qual país não tem os seus?



Hoje em dia, o Brasil já é a maior economia da América Latina e a décima maior do mundo. Em 2050, estará provavelmente em quarto lugar, ultrapassando países como a Alemanha, Japão e o Reino Unido, segundo um estudo da Goldman Sachs. Claramente, nós viramos a página, e somos hoje uma nação com o peso, ambição e fundamentos econômicos para se tornar uma potência mundial. Mas o país tem enormes desafios que deve superar antes de poder viver plenamente até seu potencial.

O setor público está inchado e cheio de corrupção. A criminalidade é galopante. A infra-estrutura necessita de muitos reparos e expansão. O ambiente empresarial é restrito, com uma legislação trabalhista da época do "êpa". O Brasil também tende a ficar na retaguarda, o que faz com que tenha uma imensa dificuldade em quantificar o enorme trabalho que precisa ser feito para que o país tome jeito.

Por outro lado, não podemos negar que tem muita coisa boa acontecendo no momento, e que o Brasil nunca teve tantas oportunidade quanto tem tido e terá nos próximos anos. Vai de nós saber aproveitar. E também, de saber se mostrar.

Beijocas!
Juliana-a-mom2be-orgulhosa-de-mais-um(a)-brasileirinho(a).

30 março 2006

Todos temos tempo

Eu falo sozinha. Falo mesmo, sempre falei. Falo alto, como se estivesse conversando com alguem. Enquanto passeio no calcadao, no tempo em que tomo banho, durante meu expediente no trabalho. Lembro que uma colega do meu curso de graduacao detestava sentar na carteira da minha frente durante os exames: eu falava comigo mesma o tempo todo e ela nao conseguia se concentrar.

Ontem foi um dia daqueles. Perdi o onibus logo cedo, debaixo de chuva e vento fortes. Meu cartao de credito foi debitado duas vezes na minha conta corrente. O Inland Revenue perdeu um formulario importante que mandei pelo correio. Recebi uma carta da companhia de seguros dizendo que o meu "medico de familia" nao responde aos pedidos dela. Uma pessoa querida nao quer mais falar comigo.

Tudo isso pra contar que fui caminhando do escritorio ate em casa praguejando. Tenho certeza de que falei todos os palavroes do mundo, ate aqueles bem feios que nem eu mesma gosto muito. Andei recentemente incrementando meu vocabulario tosco com alguns termos em ingles. Diria que foi uma xingacao anglo-brasileira, entao. Mas, mesmo tendo sido meio ignorante, me fez bem. Entrei no hall de alma lavada.

Ao checar as correspondencias, fui surpreendida por um envelope enderecado a mim. Daqueles brasileirissimos - bem tradicional mesmo - com faixas verdes e amarelas e tudo. Antes de olhar o remetente, perdi uns segundos tentando adivinhar de quem poderia ser. Desisti rapido, tive medo de errar. Afinal, mais de uma amiga tinha me prometido escrever cartas. Mas so uma realmente escreveu. E e exatamente sobre isso que quero falar aqui.

Acabei de terminar de ler a edicao 51 da
Revista TPM, cujo tema foi o Tempo. Nela, fala-se em velhice, morte, em como nos escondemos atras de uma suposta falta de tempo pela "falta de coragem de assumirmos nossa vagabundagem". Adorei esta frase. Copiei da Nina Lemos, nao pude evitar. Como ela, nao tenho duvidas de que todos nos trabalhamos bastante. Mas tambem tenho certeza de que todos temos tempo, sim.

A tal da carta tem quatro paginas. Minha amiga, dois empregos, casa, familia. E disposicao suficiente para escrever, coincidentemente, sobre o Tempo. Sobre as folhas do papel de carta que, de tao velhas, estao amarelas. Sobre termos nos acostumado com a impessoalidade do dia-a-dia. Sobre nao pararmos um minuto sequer para pensarmos na vida. Sobre termos caibras nas maos por termos perdido o habito de escrever sem a ajuda de um teclado de computador. Sobre rotina. Sobre saudades.

Eu sou do tipo que valoriza coisas simples. Nesta semana foi a carta, na semana passada um calendario. Ja recebi camiseta, cds, cartoes postais, cartoes de Natal. Todos vindos de amigos que trabalham muito. Mas que nao precisam mentir que estao sem tempo pra nada so porque e cool e bem mais facil do que escrever uma carta com quatro paginas.

Um beijo grande, fiquem bem!
Juliana.

04 março 2006

Gente esquisita

Ta bom, ta bom. Admito. Ate que e legalzinho morar no Brasil. A gente sente isso principalmente depois que passa um tempo fora. O contraste da falta de cerimonia com a qual estamos acostumados la e bem grande com relacao a toda a formalidade que temos aqui no Reino Unido.

Um bom exemplo sao os tais "sorry" que ouvimos o tempo todo. Na fila do supermercado, numa andanca no calcadao, dentro do onibus. Os ingleses sao tao paranoicos com essa coisa de se desculparem o tempo todo por tudo, que o negocio ja e automatico: mesmo que voce pise sem querer no joanete deles, sao eles que te pedem desculpas. Com cara de choro e tudo. Chega a ser patetico. Como e um ato inconsciente, da pra perceber que a reacao nao tem um pingo de emocao, ou seja, eles nao sentem muito por nada, so estao seguindo mais uma das regras de boas maneiras que aprenderam na infancia. Pra falar a verdade, acho que pisariam no teu calo se pudessem. De proposito.

A gente percebe isso quando algum deles se enche e solta a franga pra se libertar. Eu acho que no fundo no fundo nem os britanicos gostam muito de serem tachados de integros e irrepreensiveis. Queira ou nao, a carga emocional que vem junto com a obrigacao de serem perfeitos e grande, e nem todo mundo lida bem com isso. Um bom exemplo sao os desordeiros hooligans, que libertam adrenalina agindo com violencia contra torcedores do time adversario. Embora sejam agressivos num ambiente sobre o qual tem controle, podem apostar que fazem parte do rol dos que se desculpam ao te empurrar sem querer na fila do banco.

E engracado perder um tempo reparando nos contrastes do comportamento deles. Minha caderneta e cheia de topicos relacionados a isso: nao me canso de passar uma tarde por semana numa coffee shop, lendo meus livros e reparando na maneira como eles agem. Da pra colher um material e tanto, sem ter que se esforcar muito. Ao mesmo tempo em que sao cheios de normas de etiqueta, nao hesitam em enfiar a mao na boca e cavocar ate encontrar a alface que ficou presa nos dentes, provavelmente desde a hora do almoco. Nem pensam duas vezes antes de fazer isso na tua frente. Nao se preocupam em disfarcar ao limpar as maos na calca, nem ao comer de boca aberta, nem ao assoar o nariz. Um horror.

Aqui nao se tem o habito de usar guardanapo durante as refeicoes. Como ja sei de antemao, carrego comigo papel-toalha pra mesa, ja que e a unica opcao disponivel. Deve ser alguma coisa como tomar banho de banheira, outro costume que nao entendo. Os ingleses devem nascer com um opcional que os ensina a gerenciar essas duas coisas bem: por mais que eu tente, nao consigo fazer um, nem outro direito. Tenho certeza que e porque nao sei o jeito certo.

Tem outra coisa que - pelo visto - e um habito por aqui. Eles usam lencos de pano para assoar o nariz - o mesmo que limpa as maos e as frutas na hora do almoco -, o que nao e muito comum ai no Brasil. A parte curiosa e que nao guardam o lenco no bolso, mas sim dentro da manga da camisa. Todo embolado, um negocio muito estranho mesmo.

Como os ingleses sao um povo esquisitao, com habitos esquisitoes, nada mais obvio que tenham atitudes esquisitonas tambem. Bom pra mim que, a cada domingo no
Starbucks Coffee Company, encho meu livrete com mais ideias de posts para atualizar o "Comida Nao Entra" ;).

Beijos para todos!
Juliana.

PS Aqui no hemisferio norte, primavera e horario de verao a vista, nem acredito
!

16 fevereiro 2006

Nao confie em ninguem com 32 dentes

Ainda tenho pouco tempo morando na Europa para conseguir identificar com precisao qual e a descendencia de qualquer nao-ingles que troque apenas duas palavras comigo. Na verdade, acho que se tivesse que tentar adivinhar, acertaria apenas o continente de onde ele veio. E so.

No mes passado, tive um jantar "de trabalho" num restaurante italiano em Stamford, Lincolnshire (momento cultural: por Stamford ser uma cidade medieval e ainda preservar muitas construcoes daquela epoca, a cidade tem sido usada como cenario para alguns filmes bem hollywoodianos - como por exemplo
Pride and Prejudice e The Da Vinci Code). Um dos associados - que e ingles e muito bom nessa coisa de observar pessoas! - me desafiou a adivinhar a origem da garconete que estava nos atendendo. Levei o jantar inteiro procurando evidencias no comportamento e na aparencia dela, mas preferi perguntar pra nao errar: ela era mesmo sul-americana como eu suspeitava, vinda do Equador. Tinha conseguido identificar o sotaque, mas nao soube dizer ao certo se era espanhola ou brasileira. Se julgasse pela aparencia, diria que era mexicana. Este cenario e muito comum por aqui: estrangeiros trabalham em qualquer buraco que voce vai.

No comeco de janeiro passei um final de semana em Londres, durante o periodo das liquidacoes pos-Natal. Mesmo estando com meu alter-ego consumista adormecido, arrisquei dar uma passadinha na
Selfridges para dar uma olhada nas promocoes: serviu para confirmar que, mesmo com 70% de desconto, meu saldo bancario jamais comportaria uma compra em algumas das lojas de la. Lembrei disso porque tive que atravessar a loja para chegar na Miss Sixty, da qual sou fa incondicional e a qual nao deixo de dar uma visitadinha basica. Nem que seja pra ter certeza de que nao e pro meu bico.

Ao perambular pela loja, tive a nitida impressao de que estava na India: via indianos por todos os lugares. Nas lojas de perfumes, de roupas, nos cafes. Nao sei dizer se os que penso que sao indianos sao indianos mesmo, ou praquelas bandas de la (Paquistao, Afeganistao, etc.) eles parecem ser todos iguais como no resto da Asia. So sei que nao vi nenhum ingles trabalhando. So estrangeiros.

No final do ano passado fui a um restaurante mexicano com duas amigas. Depois de passarmos horas falando alto e gesticulando sem parar, um garcom brasileiro apareceu e se apresentou. Mesma coisa aconteceu em algum domingo do mes passado: toda a equipe do bistro onde eu estava almocando era brasileira. Da faxineira ao gerente. E por ai vai. Ja aconteceu de eu estar fazendo compras no supermercado e escutar dois funcionarios (brasileiros) falarem mal do chefe, por exemplo. Ate pensei em me divertir um pouco e interromper a conversa para perguntar se eles poderiam me ajudar a encontrar o acucar de baunilha que eu estava procurando, mas deixei quieto. Melhor assim.

Mesmo sendo muito observadora, descobri que as unicas especies que consigo reconhecer no meio da multidao sao os ingleses. Eles tem duas caracteristicas muito marcantes: se vestem mal e tem dentes feios. Coisa do tipo que nem o inverno disfarca (conseguem estragar o visual ate nos acessorios). Um bom exemplo? Gravata estampada com raposas, camisa xadrez e duas abotoaduras diferentes: uma de porquinho e outra de peixinho. Tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Gracinha, nao? Me avisem o dia em que virem um italiano vestindo uma combinacao dessas...

Meses atras li no Financial Times que os dentistas ingleses sao os mais bem pagos do mundo. Nao e pra menos: pra mim os britanicos tem os dentes mais mal cuidados que ja vi na vida. Isso quando tem dentes, porque todo mundo por aqui tem um ou dois deles faltando. Nenhum dos Titas teria problema em encontrar alguem em quem confiar: podem apostar que ninguem tem 32 dentes por aqui, a nao ser os indianos da Selfridges e os brasileiros do Tesco. Nestes dai acho que nao da pra confiar mesmo...

Beijo grande e bom fim de horario de verao pra voces!
Juliana.

17 janeiro 2006

Patricinha? Eu?

De todas as minhas amigas queridas, muitas me acham patricinha. Outras me acham feminista. As que sobraram nao acham nada disso. E se eu perguntar vao me mandar catar coquinhos.

Comecei a pensar nisso depois que li a entrada mais recente no
Blog pessoal da Fernanda (Guimaraes Rosa, a mesma do Chucrute com Salsicha). O assunto tinha a ver com o ziper de uma calca dela, que fechava do lado errado. A questao era essa mesma: sera que o ziper estava costurado do lado errado? Ou sera que, por alguma razao que ninguem sabia qual era, ele estava costurado certo? So sei que la pelas tantas me vi checando os ziperes de todas as minha calcas de trabalho para ver se eu entendia do que ela estava falando. E descobri que pelo menos um deles fecha do lado esquerdo! Eu, hein!

Quem diria. Eu, euzinha, da calca jeans e camiseta branca, vestindo calca social todo dia. Mas nao e por gosto nao, e por pura obrigacao: me acho muito artificial naquilo tudo. Tenho muito mais criatividade para me arrumar num jeans (brasileiro, c-l-a-r-o!) do que numa calca de linho. E podem apostar que fico muito mais bem vestida. Calcas jeans sao muito versateis, sou fa mesmo. Combinam com sandalia, bota ou tenis. Com noite ou dia. Com festa. Com dia de ficar em casa. Com rock, pop ou musica classica. Com teatro ou jogo de futebol. E com meu santo-rimel-de-todo-dia! Definitivamente, tem tudo a ver comigo.

Nao faz muito tempo comecei a ler revistas de moda. Desde entao, tenho usado mais acessorios, salto alto, maquiagem, decote. Tambem me apaixonei por uma designer de bijuterias paulistana, por calcas com strecht, por sutias de um determinado modelo, por batas, por sunquinis. Mudei o corte e a cor do meu cabelo e o formato da sombrancelha. Nunca deixei de ir a manicure uma vez por semana. Nem de ter uma nocao do que esta na moda. Pra nao fazer feio, ne?

Tai. Por isso mesmo e tao dolorido ter que usar calca de alfaiataria todos os dias. As opcoes de variacao sao tao poucas, que quase posso chamar de uniforme. Mesmo assim, nao posso reclamar muito: sempre consigo dar um toque pessoal no final, ainda que muito discreto. Dia desses estava vestindo calca, camiseta e sapato pretos, casaquinho de veludo cor-de-rosa, e meia... Cinza de bolonas coloridas! Ah, agora sim! Esta sou eu! E querem saber? Sou patricinha mesmo!

Tambem tenho lido uma determinada revista super-feminista. Por coincidencia, uma das colunistas escreve um dos dos
Blogs que leio regularmente. Adoro a revista, sempre que alguem vem do Brasil traz pra mim. O conteudo e excelente: textos bem escritos, assuntos bem selecionados, enfim, material interessante e de boa qualidade. As materias variam entre politica, valores, personalidades, nao necessariamente nesta ordem. E as vezes tem uma tendenciazinha feminista sim, nao posso negar. A diferenca e que, quando os colunistas pegam pesado na historia de queimar sutias, nao acho eles tao legais assim.

Ser dona do meu nariz e adorar ser livre nao me impede de desejar ter, um dia, uma familia igual aquelas que vemos nos comerciais de margarina. O que muita gente confunde e exatamente isso: independencia com auto-suficiencia. Ser determinada nao significa aguentar qualquer tranco: sempre gostei de abraco, de cafune, de deitar no colo. E, como em todos os extremos, toda feminista e meio burra, ne?

Sendo assim, erra quem acha que pode me encontrar numa passeata mulheres-unidas-jamais-serao-vencidas qualquer dia desses. Alem do mais, nao vou sair por ai queimando os meu sutias a toa. Eles sao de um determinado modelo, e estao super na moda!

Beijo pra todos, pisem no mar por mim!
Juliana.

21 dezembro 2005

Chatos sao os outros

Antes de eu fazer dieta pela primeira vez, achava os que faziam muito chatos. Era uma neura almocar na casa das amigas acima do peso: aquela balancinha imprecisa do Vigilantes do Peso estava sempre por perto, ajudando no controle do peso do franguinho sem sal, da vagem, do tomate-cereja. Era ate desconfortavel comer bastante ou repetir perto delas, ja que a refeicao das pobrezinhas era milimetricamente controlada. E ai de quem fugisse a regra: pelo que me lembro todos os gordinhos em potencial se encontravam semanalmente, para se pesarem uns na frente dos outros. Imaginem que vergonha estar mais pesado do que na semana anterior? O pessoal era Vigilante mesmo, ne? Vixi!

Depois de eu fazer dieta pela primeira vez, em 1999, como a maioria de voces deve saber, comecei a achar os que fingiam que faziam muito chatos. Tenho uma amiga que vivia reclamando que nao emagrecia, mas que tinha forca de vontade, e bla-bla-bla. Forca de vontade nada. Comia salada de alface e tomate no horario de almoco (um desastre completo: fazia uma dieta completamente desbalanceada, cheia de hortalicas, sem proteinas, carboidratos, gorduras, nada disso), mas tinha uma gaveta cheia de guloseimas no escritorio. Tudo que estava na minha lista de consumo eventual ela tinha escondido na gaveta: brigadeiros, chocolates, pacocas. E mesmo assim continuava teimando comigo que eu era sortuda em perder peso, e nao determinada. Alem de realmente se achar azarada porque nao perdia nada. Colocava a culpa na genetica. Auto-piedade e muito feio, ne?

Depois de eu perder muito peso comendo muito e muitas vezes por dia, evolui e parei de julgar os outros.

Bem. Acontece que, antes de vir morar no Reino Unido, dei uma passada no consultorio da minha nutricionista para pegar uma dieta versao britanica, just in case. E nao deu outra: precisei mesmo dela. Aqui estou eu de novo, relembrando os velhos tempos da refeicoes balanceadas, impulsos controlados, dos 3/4 de Big Mac e 12 batatas fritas. E olha que nao sou daquelas descontroladas, que come enlouquecidamente. Mas quando estou ansiosa, apelo pro meu lado emocional: continuo comendo pouco, mas muito doce. Um veneno.

Depois de todo o estresse dos ultimos anos, tive merecidas ferias e um longo periodo de descanso. A vida desregrada que levei nos ultimos 6 meses me devolveu 7 dos 15 quilos que eu tinha perdido ha quase 7 anos. E o primeiro mes de Inglaterra ainda me somou mais 2. Quando subi numa balanca pela primeira vez aqui, quase cai dura. E quando um dos meus irmaos me mandou um e-mail dizendo que eu estava ficando "bochechuda" de novo, quis enfiar minha cabeca num buraco.

Sendo assim, ca estou eu - de novo - andando pra la e pra ca com as minhas cadernetas de dieta. Minha ficha caiu 6 quilos antes do que da outra vez, pelo menos. Ja perdi os 2 quilos britanicos, e estou indo bem, embora as vezes tenha vontade de comer um elefante. Faltam os outros 6.

Hoje em dia, depois de estar de dieta pela segunda vez, continuo achando chatos aqueles que fingem que fazem. Mas mais chatos ainda sao os que nao fazem nada. Aqueles que, mesmo sabendo que eu nao posso sair por ai comprando um docinho em cada esquina, ficam lambendo os beicos quando abro um vidro de pepinos em conserva ou um pacote de frutas secas. E la se vao 25 calorias que eu poderia ter comido no pedacinho da barra de cereais que eu tirei da bolsa e ofereci...

Sabem o que? Os outros serao sempre chatos!

Beijao pra todos, aproveitem o sol deste comecinho de verao!
Juliana.

07 dezembro 2005

A gente e pobre, mas e limpinho

Nunca tinha parado pra pensar que talvez o fato de a gente repetir incansavelmente que somos pobres e limpinhos tivesse fundamento.

Divido o banheiro do segundo andar com mais dois europeus. Um deles e uma espanhola queridissima com quem me dei bem desde que cheguei. Sempre que podemos perdemos uns minutos conversando sobre amenidades. Digo isso porque nem sempre e possivel: ela trabalha durante a noite, eu durante o dia. Ela folga no meio da semana, eu nos finais de semana. Ela janta tarde, eu cedo. Vez ou outra a gente se encontra. O outro e um estudante ingles pos-adolescente tipico: recebe torpedos no celular a cada cinco minutos durante toda a madrugada, conversa por horas ao telefone, fala rapido, corre para subir e descer as escadas, adora comer salsicha. Ah, e e ruivo. Claro.

Como toda pessoa observadora - embora nao esteja na minha propria casa - presto muita atencao em tudo ao meu redor. Sei dizer quando as coisas mudaram de lugar, por exemplo. Ou se tem algum objeto faltando ou sobrando em determinado ambiente. Coisas de gente metodica. Fazer o que.

Semana passada invoquei com a tampa do ralo da banheira. Deve ser porque eu nao gosto de banheira (eu e a espanhola usamos o chuveiro do banheiro no primeiro andar), ou porque, pela primeira vez em tres semanas, escutei o meu flatmate enche-la para tomar banho. Desde entao fiquei controlado a disposicao de todos os objetos relacionados ao banho dele: nada mudou de lugar por uma semana. Tudo ficou ali, intacto, exatamente na mesma posicao. Sendo assim, descobri que aqui no Reino Unido nao se toma banho aos sabados, como costumamos fazer piadas no Brasil, mas sim as segundas. E tambem que aqui so se toma banho uma vez por semana. E olhe la.

Nao sei qual a razao para os ingleses terem tanta necessidade de serem diferentes. Vim preparada para conviver pacificamente com a mao inglesa, mas nunca imaginei que as tomadas de tres pinos me dariam tanto trabalho. Tive que comprar outro secador de cabelo. O meu, americano, se recusou a funcionar. Alem disso, aqui se janta na hora do almoco e se almoca na hora da janta; se compra com Libras ao inves de Euros; se usa 220V ao inves de 110V; se abre latas ao inves de cozinhar de verdade; se veste calca social para trabalhar, ao inves de jeans; se corre na rua, ao inves de andar. Ninguem vai a manicure todo sabado. Tampouco escova os dentes na hora do almoco.

Fora isso, o sistema casa-comida-roupa lavada tem funcionado bem. Me sinto muito a vontade em casa (outra coisa esquisita: as casas aqui tem nome, a minha, por exemplo, se chama Casalina), o que e muito bom. So que, numa proxima oportunidade, vou procurar um lugar que ofereca casa-comida-roupa lavada e passada. Coisa chata esse negocio de passar roupa!

Miss you!
Juliana.