Mostrando postagens com marcador cultura norueguesa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura norueguesa. Mostrar todas as postagens

28 junho 2011

Vive la France!

Parece glamouroso para quem nunca fez, mas mudar de país não tem nada de divertido. Em uma semana lá vou eu de novo, desta vez com destino à França, por tempo quase indeterminado. Teoricamente (t-e-o-r-i-c-a-m-e-n-t-e!) devo voltar à Noruega em meados de junho do ano que vem - ou quem sabe setembro! - quando a licença maternidade acaba. Na Noruega, a licença maternidade é de até treze meses: dez para a mãe e mais três para o pai (obrigatórios, viu, rapazes, aqui não tem como escapar daquela fralda cheia de cocô!). Como o Matthieu não mora, não paga impostos, ou seja, não tem nenhum benefício aqui na Noruega, a licença à qual ele teria direito pode, eventualmente, passar para mim.

Na verdade, tudo depende da veneta de quem vai lidar com a minha papelada lá no "INSS" da Noruega. Ah, sim, porque aqui não tem nada escrito em lugar nenhum. Quando se vai a qualquer escritório do governo norueguês, se recebe o mínimo de instruções necessárias sobre o que fazer exatamente. Sendo assim, todos ficam à mercê da pessoa com a qual estão lidando no momento. Já aconteceu de eu ir várias vezes no mesmo lugar e ser atendida por pessoas diferentes, o que resultou em eu ter que adaptar meu processo do que quer que seja à interpretação daquela pessoa sobre a "lei" norueguesa. Tenho plena consciência de que na França não vai der diferente, então digamos que estou fazendo um "aquecimento" aqui na terra do Papai Noel. Me adaptar num outro país do Velho Mundo vai ser mais um empenho, mas nada que não dê pra encarar. Morei na Inglaterra por dois anos e cinco meses, e estou quase completando três anos e três meses de Noruega. Já são quase seis anos fora do Brasil que, sinceramente, passaram voando.

Eu, particularmente, levo um certo tempo para me acomodar. Entre o primeiro e segundo anos que sucedem a mudança de um lugar ao outro, perco muito tempo tentando esmiuçar as diferenças culturais entre o Brasil e o país onde estou vivendo no momento, planejando como posso adaptá-las ao que estou acostumada, ou como faço para entrar em harmonia com elas. Leva tempo. É impossível entender a complexidade cultural enraizada em qualquer lugar fazendo bico na lanchonete da esquina ou passando férias de verão, nem que seja todo ano. Acho muito banal quando escuto um discurso desse tipo, onde o fulano acha que morou não-sei-onde porque já esteve lá trezentas vezes. Pra mim, se nunca pagou impostos no tal lugar, nunca morou lá. Não tem jeito melhor de conhecer qualquer sistema do que se submeter à ele.

A França tem a vantagem de ser o país de origem do Matthieu que, embora não esteja acostumado a vê-la do ponto de vista de um imigrante, pelo menos consegue antecipar alguma coisa que possa me aborrecer. A desvantagem é que, além do exercício diário que é tentar entender porque os franceses compram baguetes e carregam as ditas cujas debaixo do braço, sem cerimônia, ainda tenho que me adaptar à diferenças culturais dentro de casa. Imagino que, para que eu viva em paz na França, deva levar menos tempo do que na Inglaterra e Noruega. Em compensação, deve ser mais doloroso, já que existe a pressão de eu não ter a opção de não me adaptar, por fazer parte de uma família bi-cultural.

Esta vai ser a primeira vez que me mudo de país por uma questão pessoal - e não profissional -, o que me impede de questionar demais. Quem me conhece um pouco sabe que uma situação como essa deixa o meu lado latino em polvorosa! Além disso, os franceses (dependendo da região) são fechados, reservados, meio machistas, não muito amigáveis e extremamente intolerantes com estrangeiros e imigrantes. Tenho plena consciência de que vai ser difícil controlar o sangue quente (e também os hormônios, durante os próximos três meses), mas nada que trezentas aulas de ioga não resolvam. Tive que fazer o mesmo exercício tanto na Terra na Rainha quanto aqui em Vikingland, e continuo firme, forte e respirando até hoje! ;)


["La Liberté guidant le peuple", Eugène Delacroix]

Como every cloud has a silver lining, estou extremamente confiante e contando os dias para fugir do verão escandinavo, cuja média de temperatura no mês de julho não ultrapassa os dezoito graus Celsius. França, aqui vou eu. Sem preconceitos, mas levando uma sacolinha para carregar a minha própria baguete, claro! ;)

Mil beijos!
Juliana.

06 maio 2008

A Noruega e o elefante

E a segunda vez que mudo de pais em menos de tres anos. Mesmo tendo aprendido muitas licoes, ainda estou longe de tirar de letra. Continuo repetindo muitos dos erros que cometi quando me mudei do Brasil para a Inglaterra, como, por exemplo, comprar uma coisa pensando que e outra, pegar onibus errado ou jogar lixo organico na lata destinada a reciclaveis. Acontece.

A possibilidade de vir de mala e cuia para a Noruega veio de repente. A mudanca viria, era inevitavel. So que imaginei que seria, no maximo, de volta pra casa. A proposta da mudanca para Oslo foi tentadora em todos os sentidos: a cultura e o idioma diferentes e o desafio de morar na Escandinavia – mas continuar na Europa – me ganharam. Apesar de a Inglaterra ser um pais desenvolvido, nao se compara aos padroes escandinavos: a Noruega tem a populacao 99% alfabetizada, civilizadissima, irritantemente organizada e um dos menores indices de corrupcao do mundo, o que justifica o pais ser um dos melhores lugares para se morar, segundo o Human Development Index das Nacoes Unidas.

Os noruegueses sao super patriotas. Tambem, pudera. O pais declarou sua independencia apenas em 1905. Durante as guerras Napoleonicas, a Dinamarca, que controlava a Noruega, era aliada de Napoleao. Do outro lado estavam Suecia, Gra-Bretanha e Russia. Depois de ter sido expulso da coalisao a qual pertencia, o frances Jean-Baptiste Bernadott, ex-marechal de Napoleao, foi “adotado” pela Suecia. Em 1814, ele incluiu a Noruega nas negociacoes de paz, o que fez com que o pais passasse a pertencer a Suecia, em vez da Dinamarca. Os noruegueses se revoltaram, declararam independencia, redigiram sua propria constituicao e elegeram seu rei. A liberdade durou apenas tres meses. A Suecia invadiu a Noruega, que perdeu a guerra e voltou a pertencer ao pais vizinho. 91 anos depois, a uniao foi pacificamente dissolvida e a pequena e pobre Noruega se tornou independente. No dia 17 de maio se comemora o Dia da Constituicao (Grunnlovsdag), um dos feriados mais importantes – se nao o mais – do pais.

O pais dos vikings, geleiras e leoes-marinhos tem mesmo que comemorar. Depois de ter sido novamente destruido (desta vez durante a Segunda Guerra), ser cidadao de um pais cujo PIB per capita figura entre os primeiros do mundo e mesmo coisa pra se orgulhar. Claro que a descoberta de petroleo em 1971 deu uma maozinha. Mas isso e historia pra outro texto neste mesmo Blog. :)

O meu noruegues ainda e nulo. Eu tento fixar algumas expressoes bem basicas como, por exemplo, “Jeg snakker ikke norsk (Eu nao falo noruegues)” , mas meu cerebro se recusa e sempre entro em panico quando alguem vem falar comigo. Ah sim, eles vem. E de monte. Pedir informacao, entao, nem se fala. Nao sei o que leva esse povo a pensar que, num pais onde 70% da populacao tem olhos azuis, a brasileira com cara de espanhola pode ajudar. Felizmente (quase) todo mundo e bilingue eo ingles faz parte da vida deles. Se nao fosse assim, eu estaria vivendo de pao (brød) e queijo de cabra (geitost), que sao as unicas palavras que sei falar.

Como todo tipo gastro-curioso, ja fiz varias visitas ao supermercado. Tento fazer minha lista de compras em noruegues, o que facilita um pouco. Como era de se esperar, aqui se acha peixes fresquissimos (eles tem nove tipos diferentes de bacalhau!), paes de todos os tipos e muito queijo. A surpresa fica por conta do prato nacional: pizza! A populacao tambem consome muitos salgadinhos (como batatinhas fritas, por exemplo) e o pais e um dos lideres no ranking europeu no consumo de refrigerantes e doces. Bem. Nem tudo e perfeito.

No mais, ainda estou doidona com a conversao da moeda. A Inglaterra e um pais caro, mas Oslo e a cidade mais cara do mundo e os impostos sao altissimos por aqui. Uma taca de vinho numa pizzaria de um bairro nobre da cidade chega a custar o mesmo preco que uma garrafa de vinho no Brasil. E vamos parar por aqui. Se eu contar o preco da refeicao que acompanhou o vinho, todos desistem de me visitar.

Beijos grandes.
Juliana.