Acabei de perceber que o abacaxi que comprei tem uma etiqueta que diz: "Preparation guidelines: Remove crown and outer skin whit a sharp knife. Cut away core and chop the flesh into cubes or slice into rings.". Ja comprei manga que veio com instrucoes de uso. Kiwi tambem.
Eu me divirto! :)
Juliana.
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21 fevereiro 2007
26 janeiro 2007
Adeus, Casalina!
[Armario desorganizado da Casalina]
Aqui na Inglaterra e assim. Todas as casas sao numeradas e algumas sao nomeadas. Essa coisa de se dar nomes as casas comecou ha muito tempo - quando os ricos comecaram a querer diferenciar suas propriedades das dos outros - e continuou com o passar dos anos. Hoje em dia, ate o proletariado tem casas com nomes e numeros. A coisa toda ja nao e mais um privilegio so da burguesia inglesa. Faz tempo.
Parece brincadeira, mas nao e. Como ingles adora uma competicaozinha e parece ter diponibilidade pra todas essas bobagens, como nomear o jardim mais bonito, o cidadao mais patriota, a cenoura mais comprida cultivada em estufa (eu vi a tal cenoura numa feira agropecuaria no ano passado!), o diabo a quatro, claro que existe um ranking com os cinquenta nomes de casas mais populares por aqui. Liderando, esta o The Cottage ou A Casa de Campo, meio que querendo traduzir o que nao se traduz. Por ultimo, Oaklands. A casa onde eu morava - a das costeletas! - se chama Casalina. Pelo que sei, e o nome de uma vilazinha em algum lugar da Italia.
Como tudo por aqui, segue um padrao. Os nomes das casas sao inspirados em lugares, historia local, literatura e lendas. Fica ate divertido escrever o endereco do destinatario de correspondencias aqui no Reino Unido. Para Fulano de Tal, Celeiro da Andorinha (ou Os Salgueiros ou Vista do Prado ou Casa do Moinho ou O Ninho), Rua Tal, etc.
Casalina tinha numero tambem: dezesseis. Nunca usei o nome, mas tive oportunidades e achei melhor nao arriscar. Sempre preferi o modelo convencional - com numeros - adotado em 1765. Ja e dificil encontrar a tal casa procurando pelo numero, porque o quatorze fica do lado esquerdo da rua, fugindo a regra de que os numeros pares devem ficar do lado direito de quem esta de costas para o centro da cidade e, naturalmente, ao lado do dezesseis. Imaginem so o empenho do carteiro em encontrar a Casalina, que fica “logo ali”, ao lado do Pulo dos Esquilos.
Falar sobre rankings me fez lembrar um negocio curioso. Por aqui as competicoes tem os vencedores, os segundos colocados, os trabalhos - ou o que quer que seja - que valem a pena ser vistos e os que foram muito comentados. Perdedores voce nao encontra em lugar algum. Na semana passada estive em Bristol, visitando uma exposicao de fotografias sobre Vida Selvagem no Museu e Galeria de Arte da cidade, e nao consegui achar alguma que nao estivesse classificada numa daquelas categorias. Meio patetico, ate.
No mais, morar na nova casa tem sido bom. Esta nao tem nome, por ser uma townhouse. Neste caso, se nomeia o conjunto todo, como se, em vez de colocar o numero do condomínio, se colocasse o nome dele. Nada como O Pomar, mas ainda assim esquisito.
Faz cinco meses que deixei a Casalina, nunca mais voltei la e nem quero. Estou muito bem, obrigada, aqui onde estou. Minha casa e novinha em folha, bem iluminada, bem ventilada, bem localizada. Minha geladeira e limpinha, meu fogao tambem. Os vizinhos sao legais. O cinema e logo ali. E ninguem faz costeletas de porco pro jantar. Daqui eu nao saio, daqui ninguem me tira :)
Um beijao. Adorei estar de volta!
Juliana.
Juliana.
30 junho 2006
Abaixo as costeletas!
Que venha o verao! Dezessete horas de insolacao por dia. Sol a pino. Temperaturas em torno de trinta graus. Brisa. Agua mineral. Muita gente nas ruas, nos parques e nas pracas. Pernocas, pancas e pes de fora. Tempo de sobra pra praticar esportes. E costeletas de porco com barbecue sauce pra jantar. Ninguem merece. Ninguem mesmo.
Aqui e assim. Muita gente se exercita pouco. Pouca gente pratica muito exercicio. A equipe de triatlo da cidade corre e nada com menos frequencia do que eu, pra voces terem uma ideia. Os maratonistas treinam duas vezes por semana, apenas. E pode apostar que a maioria deles simpatiza com todas as frituras e gorduras que sao comidas com frequencia por aqui. Uma pena.
Hoje em dia, gracas a alguns health-conscious britanicos, o tradicional cafe da manha ingles tem sido substituido por refeicoes mais leves, como cereal matinal e torradas, por exemplo. Embora ainda represente uma parcela importante no conceito ingles de refeicao matutina, alguns britons tem encarado os fry-ups como sendo uma refeicao esporadica, que aparece vez ou outra nos cardapios das residencias durante os fins de semana. Se o cafe da manha for acompanhado de suco de laranja e cha ou cafe em abundancia, ou mesmo se for composto apenas de bacon, ovos e torradas, costuma ser encarado como um inicio mais do que satisfatorio para um dia de trabalho ou lazer. Bem. Eu, particularmente, me satisfaco com um bom copo de leite.
Voltando ao fry-up. Os ingredientes variam de acordo com a regiao. A refeicao e composta basicamente de bacon e ovos, tradicionalmente fritos. Alguns dos ingredientes adicionais sao: torradas ou fatias de pao fritas, linguicas, tomates grelhados, cogumelos (grelhados tambem!), black pudding e baked beans. Alem dos hoteis - que preparam tudo isso para os turistas -, muitos greasy spoons (restaurantes pequenos, baratos e nada higienicos, especializados em frituras, que normalmente atendem a classe operaria) servem o tradicional cafe da manha ingles durante todo o dia. Bom pra quem gosta.
Aqui e assim. Um ou outro gato pingado liga pro que come. Como a esperanca e a ultima que morre, achei que o verao pudesse deixar os ingleses mais conscientes. Que nada! Balela! As cadeias de fast-food continuam lotadas. Na casa onde moro, por exemplo. De vez em quando temos salada a mesa. Quando muito, alface, tomates e pepinos. Em compensacao, comida oleosa e gordurosa e abundante. Sobram costeletas, bistecas e batatas.
A historia das costeletas de porco com barbecue sauce aconteceu mesmo. Os acompanhamentos eram espigas de milho e hash brown potatoes. Nem sinal de hortalicas ou verduras na geladeira, muito menos a mesa. Era domingo a noite, estava calor pra burro. Eu tinha acabado de chegar de um fim de semana natureba, regado a exercicios fisicos e muita agua mineral. Mesmo assim, jantei tudinho, nao tive como escapar. E fiquei emputecida. Nao posso negar.
Resultado? Estou de mudanca!
Beijao!
Juliana.
Aqui e assim. Muita gente se exercita pouco. Pouca gente pratica muito exercicio. A equipe de triatlo da cidade corre e nada com menos frequencia do que eu, pra voces terem uma ideia. Os maratonistas treinam duas vezes por semana, apenas. E pode apostar que a maioria deles simpatiza com todas as frituras e gorduras que sao comidas com frequencia por aqui. Uma pena.
Hoje em dia, gracas a alguns health-conscious britanicos, o tradicional cafe da manha ingles tem sido substituido por refeicoes mais leves, como cereal matinal e torradas, por exemplo. Embora ainda represente uma parcela importante no conceito ingles de refeicao matutina, alguns britons tem encarado os fry-ups como sendo uma refeicao esporadica, que aparece vez ou outra nos cardapios das residencias durante os fins de semana. Se o cafe da manha for acompanhado de suco de laranja e cha ou cafe em abundancia, ou mesmo se for composto apenas de bacon, ovos e torradas, costuma ser encarado como um inicio mais do que satisfatorio para um dia de trabalho ou lazer. Bem. Eu, particularmente, me satisfaco com um bom copo de leite.
Voltando ao fry-up. Os ingredientes variam de acordo com a regiao. A refeicao e composta basicamente de bacon e ovos, tradicionalmente fritos. Alguns dos ingredientes adicionais sao: torradas ou fatias de pao fritas, linguicas, tomates grelhados, cogumelos (grelhados tambem!), black pudding e baked beans. Alem dos hoteis - que preparam tudo isso para os turistas -, muitos greasy spoons (restaurantes pequenos, baratos e nada higienicos, especializados em frituras, que normalmente atendem a classe operaria) servem o tradicional cafe da manha ingles durante todo o dia. Bom pra quem gosta.
Aqui e assim. Um ou outro gato pingado liga pro que come. Como a esperanca e a ultima que morre, achei que o verao pudesse deixar os ingleses mais conscientes. Que nada! Balela! As cadeias de fast-food continuam lotadas. Na casa onde moro, por exemplo. De vez em quando temos salada a mesa. Quando muito, alface, tomates e pepinos. Em compensacao, comida oleosa e gordurosa e abundante. Sobram costeletas, bistecas e batatas.
A historia das costeletas de porco com barbecue sauce aconteceu mesmo. Os acompanhamentos eram espigas de milho e hash brown potatoes. Nem sinal de hortalicas ou verduras na geladeira, muito menos a mesa. Era domingo a noite, estava calor pra burro. Eu tinha acabado de chegar de um fim de semana natureba, regado a exercicios fisicos e muita agua mineral. Mesmo assim, jantei tudinho, nao tive como escapar. E fiquei emputecida. Nao posso negar.
Resultado? Estou de mudanca!
Beijao!
Juliana.
07 abril 2006
British cuisine, sim senhor!
[Hot cross buns]A comida da Gra-Bretanha* sempre teve uma reputacao pra la de duvidosa. Tambem pudera: quem se arriscaria a experimentar um negocio chamado tow'd in't th'ow (toad in the hole, num dialeto tradicional), sem ao menos saber do que se trata? Eu, nunca. O tal prato quer dizer - literalmente - Sapo no buraco. E o nome do pub que serve isso deve ser alguma coisa parecida com A Vaca, ou O Carneiro, ou algum outro assim, bem ordinario. Podem apostar.
Sapos e buracos a parte, toad in the hole e um prato ingles super tradicional. Tipico do norte da Inglaterra. Ja vi varias vezes por aqui, mas nunca imaginei que tivesse este nome. Nada mais e do que Cumberland sausages servidas dentro de um Yorkshire pudding, normalmente acompanhado de vegetais. Outros classicos ingleses sao: rhubarb crumble, marmite, Ploughman's lunch, fish and chips e Cornish pasty, bons exemplos de comida boa com nome comum. Bem basico. Como tudo que e natural daqui.
Tenho certeza de que nenhum de voces sabe que os queijos ingleses estao entre os melhores do mundo. Superiores aos franceses, ate. A grande diferenca e que os franceses sabem vender os queijos deles. E a se vender tambem. Coisa que os britanicos estao muito longe de saber fazer bem. Nem existe uma palavra em ingles equivalente a "bom apetite", para voces terem uma ideia. E os pratos sao nomeados assim mesmo, sem atrativos. Enquanto os ingleses usam custard para enriquecer as sobremesas deles, os franceses chamam o mesmo molho de creme anglaise. Chamam canapes de vol-au-vents. Cozido de cassoulet. Ensopado de bouillabaisse. Eles sao bons mesmo!
Thanks God hoje em dia e possivel encontrar comida decente por aqui. O pais e cheio de lojas de cadeias de fast-food, mas, gracas a influencia de paises como a China, India, Tailandia, Italia e paises mediterraneos, ja nao e mais tao dificil descobrir comida boa e barata em pubs e cafes.
A criacao do que e chamado de modern British cuisine tambem ajudou. No ano passado, uma revista de culinaria elegeu o restaurante do chef ingles Heston Blumenthal como sendo o melhor do mundo. Embora o dito cujo se chame The Fat Duck (ate os estrelados-Michelin tem nomes ridiculos, como voces podem ver), tem muito boa fama. Heston trabalha com o mesmo conceito da nueva nouvelle cuisine que o chef espanhol Ferran Adria - considerado um dos melhores chefs do mundo na atualidade - ajudou a divulgar internacionalmente.
Tem um negocio que esta super na moda tambem, chamado gastropub. Sao pubs especializados em comida de primeira qualidade, num nivel superior ao dos tradicionais pub grubs. A expressao foi criada em 1991, quando um pub chamado The Eagle (nada criativo, diga-se de passagem), em Londres, fez questao de enfatizar que a comida servida la era preparada nos mesmos padroes dos bons restaurantes da cidade. E tambem que, mesmo assim, a atmosfera descontraida era mantida. O equivalente na Franca sao as brasseries.
Ainda nao tive a oportunidade de experimentar tudo, mas ja tenho alguns favoritos - eu diria que alguns must-eats - para indicar a quem vier para os lados da terra da Rainha qualquer dia desses. Sao eles: gingerbread, parsnip, goat's cheese, Eccles cakes, steak and kidney pie, Welsh cakes, black pudding e haggis. Todos cuidadosamente bem selecionados, claro. Tem que saber onde comprar, nao da pra sair comendo torta de bife e rim em qualquer lugar.
Ah, tem outra coisa curiosa aqui! Quando alguma data festiva se aproxima, os ingleses dao um jeito de colocar uma comida sasonal no meio da festa. Para indicar o comeco da Quaresma, por exemplo, na terca-feira antes da Quarta-feira de Cinzas, todos aqui comem panquecas. O dia e conhecido como Pancake Day. Elas sao preparadas para que todo o estoque de leite de ovos das residencias seja liquidado, ja que o prazo de validade destes alimentos e inferior ao periodo da Quaresma em si. Na Suecia come-se Semla. Na Italia, lasanha. Na Lituania, doughnuts.
A novidade da semana sao os Hot cross buns. Eu nunca tinha visto antes. Apareceram de repente, de um dia para o outro, e hoje lotam as prateleiras dos supermercados. E um paozinho doce, condimentado, cheio de uvas passas selecionadas e uma cruz feita de papel de arroz bem no meio deles. Historicamente, em paises cristaos, estes paes sao comidos na Sexta-feira da Paixao, ja que a cruz simboliza Cristo. Eu ganhei um e comi ontem mesmo, no horario de almoco. E estava otimo, mesmo assim!
Embora tenha nevado na semana passada, a primavera chegou de verdade. As ruas estao cobertas de narcisos - que chegam a enjoar, de tantos! - e, os dias, cada vez mais longos. E da-lhe protetor solar pra resguardar o rosto de todos os raios de sol, ja que a minha pele nao os ve faz tempo ;).
Um beijao!
Juliana.
*Com o passar dos seculos, a Gra-Bretanha evoluiu politicamente passando de paises independentes (Inglaterra, Escocia e Pais de Gales) a dois reinos que dividiam a mesma monarquia (Inglaterra e Escocia), e, depois, a uma unica ilha, chamada Reino da Gra-Bretanha. Esta configuracao durou ate 1801, quando da uniao da Gra-Bretanha com a ilha Irlanda. Formou-se, entao, o Reino Unido da Gra-Bretanha e Irlanda. Hoje em dia, depois da independencia de 5/6 da Irlanda em 1920 - a que hoje chamamos de Republica da Irlanda -, o nome completo do que chamamos carinhosamente de UK e Reino Unido da Gra-Bretanha e Irlanda do Norte. Ufa!
25 janeiro 2006
Si fueris Romae, Romano vivito more, si fueris alibi, vivito sicut ibi
"Quando em Roma, faca como os romanos fazem". Foi o que St Ambrose disse para St Augustine no seculo IV, antes que o negocio todo caisse na boca do povo. E aqui estou eu, dezessete seculos depois, usando a versao original - do que agora e um proverbio bem popular - para nomear a entrada desta semana no meu Blog.
Os romanos ainda se fazem muito presentes por aqui: deixaram vestigios por todos os lugares da Inglaterra, coisa da epoca do Imperio Romano. As provas mais evidentes sao as roman roads, o que nao e uma surpresa: por razoes militares, comerciais e politicas, os romanos se especializaram na construcao de estradas. Elas foram essencias para o desenvolvimento do Imperio, ja que permitiam que os exercitos se deslocassem rapidamente de um ponto a outro. Alem disso, ajudaram a sustentar o mercantilismo romano por facilitarem o transporte terrestre. E foram elas - tambem - que originaram aquele outro proverbio, bem conhecido: "Todos os caminhos levam a Roma".
E levam mesmo. As estradas romanas foram desenhadas na direcao de Roma: o objetivo era impedir que as provincias se unissem e resistissem contra o Imperio. Todas foram muito importantes em manter sua estabilidade e expansao, e algumas sao usadas ate hoje, um milenio depois. Eu mesma ja passei por muitas delas. O que deu errado foi que, na Antiguidade, as mesmas estradas facilitaram a invasao dos barbaros, e, consequentemente, o recuo dos romanos.
Na verdade o objetivo nao e falar sobre o Imperio Romano, mas sim do quanto incorporei o meu lado britanico no domingo passado. Fiz como os britanicos fazem, nao como os romanos. Embora o dia ensolarado nao tivesse nada de ingles, assumi o meu lado elisabetano e fui a um pub bem popular com alguns amigos, assistir a um jogo de futebol. Nada menos que um classico: Manchester United e Liverpool. Quase um Atletiba!
Como ja estava la mesmo e tinha que entrar no clima, nao deixei de tomar cerveja. Melhor. Tomei shandygaff, ou shandy: um coquetel feito da mistura de cerveja (quase sempre inglesa) e uma bebida nao-alcoolica (aqui na Europa eles usam refrigerante de limao). As proporcoes dos dois ingredientes sao ajustadas de acordo com o gosto do fregues, normalmente meio-a-meio, embora o shandy industrializado seja tipicamente mais fraco (aproximadamente uma medida de cerveja para dez de refrigerante). Na Bavaria, a mesma bebida e chamada de russ.
Para minha decepcao, o Hog's Head nao tem clima de pub. E super iluminado, bem moderninho, diferente de todos os outros em que ja estive, tanto na Inglaterra quanto na Escocia, e ate mesmo no Brasil. Nao posso evitar, e automatico: relaciono pub com dificuldade para ler o cardapio pela falta de iluminacao, com um cara sentado la no canto bebendo horrores e conversando com a garconete do balcao, com garcom grosso e mal-educado, com banheiro sujo, enfim, com todo o conceito do qual os britanicos se orgulham de ter construido ate hoje, inclusive com o de eles serem os maiores beberroes do mundo. Falando nisso, como se bebe por aqui! Meudeusdoceu! Neste pais (adoro esta expressao, aqui se usa muito) ninguem fica um dia sequer sem tomar pelo menos meio litro de cerveja. E olha que falo por experiencia propria: nem queiram saber o que encontro pela rua todo dia de manha, a caminho do trabalho...
De volta ao Hog's Head. Montes de ingleses e inglesas, uns de pe, outros sentados, mas todos, todos mesmo, bebendo e fumando enlouquecidamente. Na minha mesa, nenhum bebado e nenhum fumante. So gente de toda parte do mundo: eu, minha colega brasileira, dois eslovacos, um espanhol e um... Ingles, claro. Nao poderia faltar. Sobre o jogo? Manchester United marcou um gol no ultimo minuto do segundo tempo. Um dia depois de eu ter adotado o Liverpool como sendo meu time ingles. Fazer o que, ne? Acontece.
Sobre a experiencia, St Ambrose que me desculpe, mas tenho minhas limitacoes: gosto de futebol, de cerveja, do humor sutil, mas nao consigo - mesmo - ficar sem escovar os dentes depois do almoco. Nem comer bacon pela manha.
Ah, curiosidade: fiz um paralelo, foi inevitavel. Comparando minha mesa no boteco com a feira de sabado, fico ainda mais fa desse nosso mundo globalizado: figos e damascos turcos, bananas vietnamitas, tamaras iranianas, caquis israelenses, e, macas. Inglesas, claro. Nao poderia faltar.
Por aqui tudo na mesma: muito trabalho, muitas viagens, muitas Roman roads pelo caminho. Ja tem amanhecido mais cedo e anoitecido mais tarde, coisa que a minha sanidade mental agradece. Ainda temos frio, o que nao e novidade. Nao temos previsao de chuva. Isso sim, e novidade!
Um beijo, fiquem bem!
Juliana.
Os romanos ainda se fazem muito presentes por aqui: deixaram vestigios por todos os lugares da Inglaterra, coisa da epoca do Imperio Romano. As provas mais evidentes sao as roman roads, o que nao e uma surpresa: por razoes militares, comerciais e politicas, os romanos se especializaram na construcao de estradas. Elas foram essencias para o desenvolvimento do Imperio, ja que permitiam que os exercitos se deslocassem rapidamente de um ponto a outro. Alem disso, ajudaram a sustentar o mercantilismo romano por facilitarem o transporte terrestre. E foram elas - tambem - que originaram aquele outro proverbio, bem conhecido: "Todos os caminhos levam a Roma".
E levam mesmo. As estradas romanas foram desenhadas na direcao de Roma: o objetivo era impedir que as provincias se unissem e resistissem contra o Imperio. Todas foram muito importantes em manter sua estabilidade e expansao, e algumas sao usadas ate hoje, um milenio depois. Eu mesma ja passei por muitas delas. O que deu errado foi que, na Antiguidade, as mesmas estradas facilitaram a invasao dos barbaros, e, consequentemente, o recuo dos romanos.
Na verdade o objetivo nao e falar sobre o Imperio Romano, mas sim do quanto incorporei o meu lado britanico no domingo passado. Fiz como os britanicos fazem, nao como os romanos. Embora o dia ensolarado nao tivesse nada de ingles, assumi o meu lado elisabetano e fui a um pub bem popular com alguns amigos, assistir a um jogo de futebol. Nada menos que um classico: Manchester United e Liverpool. Quase um Atletiba!
Como ja estava la mesmo e tinha que entrar no clima, nao deixei de tomar cerveja. Melhor. Tomei shandygaff, ou shandy: um coquetel feito da mistura de cerveja (quase sempre inglesa) e uma bebida nao-alcoolica (aqui na Europa eles usam refrigerante de limao). As proporcoes dos dois ingredientes sao ajustadas de acordo com o gosto do fregues, normalmente meio-a-meio, embora o shandy industrializado seja tipicamente mais fraco (aproximadamente uma medida de cerveja para dez de refrigerante). Na Bavaria, a mesma bebida e chamada de russ.
Para minha decepcao, o Hog's Head nao tem clima de pub. E super iluminado, bem moderninho, diferente de todos os outros em que ja estive, tanto na Inglaterra quanto na Escocia, e ate mesmo no Brasil. Nao posso evitar, e automatico: relaciono pub com dificuldade para ler o cardapio pela falta de iluminacao, com um cara sentado la no canto bebendo horrores e conversando com a garconete do balcao, com garcom grosso e mal-educado, com banheiro sujo, enfim, com todo o conceito do qual os britanicos se orgulham de ter construido ate hoje, inclusive com o de eles serem os maiores beberroes do mundo. Falando nisso, como se bebe por aqui! Meudeusdoceu! Neste pais (adoro esta expressao, aqui se usa muito) ninguem fica um dia sequer sem tomar pelo menos meio litro de cerveja. E olha que falo por experiencia propria: nem queiram saber o que encontro pela rua todo dia de manha, a caminho do trabalho...
De volta ao Hog's Head. Montes de ingleses e inglesas, uns de pe, outros sentados, mas todos, todos mesmo, bebendo e fumando enlouquecidamente. Na minha mesa, nenhum bebado e nenhum fumante. So gente de toda parte do mundo: eu, minha colega brasileira, dois eslovacos, um espanhol e um... Ingles, claro. Nao poderia faltar. Sobre o jogo? Manchester United marcou um gol no ultimo minuto do segundo tempo. Um dia depois de eu ter adotado o Liverpool como sendo meu time ingles. Fazer o que, ne? Acontece.
Sobre a experiencia, St Ambrose que me desculpe, mas tenho minhas limitacoes: gosto de futebol, de cerveja, do humor sutil, mas nao consigo - mesmo - ficar sem escovar os dentes depois do almoco. Nem comer bacon pela manha.
Ah, curiosidade: fiz um paralelo, foi inevitavel. Comparando minha mesa no boteco com a feira de sabado, fico ainda mais fa desse nosso mundo globalizado: figos e damascos turcos, bananas vietnamitas, tamaras iranianas, caquis israelenses, e, macas. Inglesas, claro. Nao poderia faltar.
Por aqui tudo na mesma: muito trabalho, muitas viagens, muitas Roman roads pelo caminho. Ja tem amanhecido mais cedo e anoitecido mais tarde, coisa que a minha sanidade mental agradece. Ainda temos frio, o que nao e novidade. Nao temos previsao de chuva. Isso sim, e novidade!
Um beijo, fiquem bem!
Juliana.
12 janeiro 2006
Mistletoe europeu
[European mistletoe attached to a poplar]Pra variar, muita coisa pra contar: fiquei pensando se falava sobre o meu cardapio de Ano Novo, sobre a saudade que sinto do mar, sobre o quanto os ingleses bebem. Fora o assunto da cozinha da minha acomodacao que, embora ja tenha sido prometido, ficou para segundo plano. Ja contei que ando com uma caderneta na bolsa para anotar tudo que vou lembrando de escrever no Blog? Pois e. Ando. Para ter certeza de que nao vou esquecer de contar nada.
No dia em que cheguei aqui na Inglaterra um dos meus diretores foi me buscar em Londres. Viemos de carro, o que significa que durante a viagem recebi informacao suficiente para preencher toda a minha caderneta. Eles sao muito ligados em Historia por aqui: todo mundo sabe pelo menos um pouquinho, e contam tudo sempre com muitos detalhes e orgulho. Da gosto e ver. Da vergonha de ser brasileiro e nao saber nada sobre o assunto.
Neste mesmo dia, entre tantas paisagens diferentes e conexoes com a cultura local, me mostraram uma arvore (ja sem folhas por causa do outono) com um arbusto que tinha crescido no meio dela. Me explicaram o que era, mas nao entendi nada: eu ainda estava ligada no Brasil, nao tinha me conectado por aqui. Afinal, minhas malas ainda estavam feitas! So sei que falaram um tanto, concordei outro tanto, e depois de tantos "Bla-bla-blas" e "A-hams" o assunto ficou por isso mesmo. Nunca entendi o que aquelas folhas estavam fazendo la, embora tenha ficado intrigada.
Depois de ter entrado na rotina e comecado a circular pela cidade, reparei que muitas arvores tinham a mesma caracteristica do que aquela: nenhuma folha, e um arbusto super-desenvolvido no meio dos galhos, bem no alto. Ficava cada dia mais emputecida por nao ter prestado atencao no que tinham me falado. E por ter concordado com a explicacao o tempo todo, ao inves de ter dito que nao tinha entendido absolutamente nada. Irritante.
Muitos arbustos depois, quando o assunto ja estava quase esquecido, tive um reuniao na vespera da vespera de Natal na casa do meu outro chefe (em Marlow). Alem de ele ter um arbusto crescendo na arvore em frente a casa dele - o mesmo que me mostraram da outra vez, ou seja, o responsavel pela curiosidade que estava me matando - ele tinha um deles dentro de casa. A esposa dele tinha colhido umas folhinhas, amarrado com um lacinho, e la estava o chumacinho cheio de folhas bem verdinhas, pendurado a 30 centimentros da minha cabeca! Nem precisei perguntar nada, ja foram me explicando por conta propria mesmo.
Me enfiaram embaixo da plantinha - que estava pendurada no teto do hall de entrada - e me deram um beijinho. E eu fiquei la, com aquela cara de quem nao entendeu nada, esperando que me contassem (de novo!) o que era aquilo. Prometi pra mim mesma que nao ia sair de la sem uma boa explicacao.
Bem. O tal do tufo se chama mistletoe. E um nome comum para varios tipos de plantas parasitas de duas familias diferentes, e originalmente aplicado a uma especie nativa da Gra-Bretanha. Embora seja engracadinho, nao deixa de ser uma parasita: pode ate matar a arvore onde cresce, se a infestacao for grande. Os passarinhos sao os responsaveis pelo plantio: eles se alimentam das sementes e evacuam nos galhos. Elas ficam coladas la e se desenvolvem.
Hoje em dia, mistletoes sao usados na decoracao de Natal. O mesmo Viscum album (nome cientifico) que falei ai em cima. De acordo com um costume local, quando duas pessoas se encontram debaixo de um maco de mistletoe sao obrigadas a se beijar. A origem disso tudo esta relacionada com a estoria do deus Bladur, que foi assassinado com uma arma feita de mistletoe (ele morreu envenenado). Dizem que ele voltou a vida porque sua mae Frigg (deusa do amor) removeu o veneno com suas lagrimas. Quando Bladur acordou, ela beijou todo mundo que passou embaixo do arbusto, demonstrando felicidade e gratidao. E dai comecou o costume!
Bem, vou ficando por aqui. Ja e tarde e ainda estou conectada, mesmo estando morrendo de sono. Ainda assim, nao consigo resistir aos meus surtos de inspiracao: sao mais fortes do que eu. Seria capaz de ficar escrevendo por horas, tamanho o prazer que me da!
Beijo grande, estou com saudades!
Juliana.
19 dezembro 2005
Um pouco de geografia
E sempre assim: ou nao estou inspirada o suficiente para atualizar meu Blog, ou estou inspirada demais. Bem pratico, bem como eu gosto.
Passei o domingo inteiro tendo ideias sobre o que escrever. Depois de ter lido todas as atualizacoes no Blog da Fernanda Guimaraes Rosa, fiquei bem tentada a escrever detalhes sobre a cozinha da Casalina, mas resolvi deixar para a primeira semana de janeiro: sem colocar uma foto, nao teria a minima graca. E so vou conseguir ter uma apropriada naquela data. Sendo assim, resolvi me concentrar em tentar mostrar o quao fascinante e morar num pais pequeno e com milhares de anos de historia.
Na semana passada comecamos um trabalho super-exaustivo com um cliente, que deve durar ate o segundo trimestre de 2006. O Projeto em si demanda muita energia e tempo, mas, alem de ser o principal responsavel por eu receber meu salario no final do mes, traz outros beneficios: para uma aficcionada por guia de viagens como eu, e um prato cheio.
Acostumada com a minha rotina de viagens a trabalho no Brasil (ainda nao me adaptei ao esquema europeu), tendo a projetar nas minhas viagens aqui aquelas maluquices que fazia ai: sempre me imagino levantando muito cedo para pegar o voo mais barato, dormindo muito tarde por ter pego o ultimo voo (baratesimo tambem, obviamente), morrendo de fome por nao ter tido tempo de comer nada, e por ai vai. Cada viagem marcada e uma tortura: nao gosto de arrumar a mala, de sair tarde, de comer com pressa.
Pra minha surpresa - e eu ja deveria ter imaginado - a viagem foi mais do que produtiva. Fora o trabalho, que foi surpeendentemente muito bem aceito pelo cliente, tive o prazer de conhecer lugares historicos, como a pequena cidade de Stratford-upon-avon (em Warwickshire), terra de Shakespeare, entre outras. Ate deu tempo de ir ao The Royal Shakespeare Theatre para saber onde fica!
O destino final da viagem era a cidade de Oakham, no condado de Rutland, a 166 quilometros de Cheltenham, que fica em Gloucestershire. Coisa de duas horas de carro, nao muito mais do que isso. A viagem foi rapida, sempre na direcao nordeste. Cruzamos ou contornamos aproximadamente uma dezena de outras cidades, e, acreditem, sete condados, que correpondem aos nossos estados ai no Brasil: Gloucestershire, Worcestershire, Warwickshire, Coventry, Leicestershire, City of Leicester e, finalmente, Rutland. Todos com suas particularidades, todos cheios de coisas pra ver.
Ja em Oakham, nao saimos de dentro do hotel. Na verdade eram dois hoteis: dormimos em um e demos treinamento em outro. Vai entender. Coisa de ingles. Em compensacao, viamos o lago Rutland Water da sala de treinamento. A paisagem era deslumbrante: manha fria de outono, tempo umido, de vez em quando neblina, de vez em quando sol. E sempre Rutland Water bem la no fundo.
Fica, entao, a sugestao de que vale muito a pena alugar um carro (alem de comprar o que eles chamam de Great Britain Road Atlas) e viajar pelo interior da Inglaterra. As surpresas serao boas, podem apostar!
Domingo que vem e Natal, e estou comecando a me preparar para comemorar como todo britanico: aqui tudo acontece no Christmas Day, e nao no Christmas Eve, como estamos acostumados. Vou passar o Natal em Londres, e o Ano Novo em Sete, no sul da Franca. Sendo assim, o Blog deve ficar desatualizado por uma semana. Prometo voltar com muita coisa pra contar, fotos da Franca e fotos da cozinha da Casalina!
Um beijo grande, e Feliz Natal!
Juliana.
Passei o domingo inteiro tendo ideias sobre o que escrever. Depois de ter lido todas as atualizacoes no Blog da Fernanda Guimaraes Rosa, fiquei bem tentada a escrever detalhes sobre a cozinha da Casalina, mas resolvi deixar para a primeira semana de janeiro: sem colocar uma foto, nao teria a minima graca. E so vou conseguir ter uma apropriada naquela data. Sendo assim, resolvi me concentrar em tentar mostrar o quao fascinante e morar num pais pequeno e com milhares de anos de historia.
Na semana passada comecamos um trabalho super-exaustivo com um cliente, que deve durar ate o segundo trimestre de 2006. O Projeto em si demanda muita energia e tempo, mas, alem de ser o principal responsavel por eu receber meu salario no final do mes, traz outros beneficios: para uma aficcionada por guia de viagens como eu, e um prato cheio.
Acostumada com a minha rotina de viagens a trabalho no Brasil (ainda nao me adaptei ao esquema europeu), tendo a projetar nas minhas viagens aqui aquelas maluquices que fazia ai: sempre me imagino levantando muito cedo para pegar o voo mais barato, dormindo muito tarde por ter pego o ultimo voo (baratesimo tambem, obviamente), morrendo de fome por nao ter tido tempo de comer nada, e por ai vai. Cada viagem marcada e uma tortura: nao gosto de arrumar a mala, de sair tarde, de comer com pressa.
Pra minha surpresa - e eu ja deveria ter imaginado - a viagem foi mais do que produtiva. Fora o trabalho, que foi surpeendentemente muito bem aceito pelo cliente, tive o prazer de conhecer lugares historicos, como a pequena cidade de Stratford-upon-avon (em Warwickshire), terra de Shakespeare, entre outras. Ate deu tempo de ir ao The Royal Shakespeare Theatre para saber onde fica!
O destino final da viagem era a cidade de Oakham, no condado de Rutland, a 166 quilometros de Cheltenham, que fica em Gloucestershire. Coisa de duas horas de carro, nao muito mais do que isso. A viagem foi rapida, sempre na direcao nordeste. Cruzamos ou contornamos aproximadamente uma dezena de outras cidades, e, acreditem, sete condados, que correpondem aos nossos estados ai no Brasil: Gloucestershire, Worcestershire, Warwickshire, Coventry, Leicestershire, City of Leicester e, finalmente, Rutland. Todos com suas particularidades, todos cheios de coisas pra ver.
Ja em Oakham, nao saimos de dentro do hotel. Na verdade eram dois hoteis: dormimos em um e demos treinamento em outro. Vai entender. Coisa de ingles. Em compensacao, viamos o lago Rutland Water da sala de treinamento. A paisagem era deslumbrante: manha fria de outono, tempo umido, de vez em quando neblina, de vez em quando sol. E sempre Rutland Water bem la no fundo.
Fica, entao, a sugestao de que vale muito a pena alugar um carro (alem de comprar o que eles chamam de Great Britain Road Atlas) e viajar pelo interior da Inglaterra. As surpresas serao boas, podem apostar!
Domingo que vem e Natal, e estou comecando a me preparar para comemorar como todo britanico: aqui tudo acontece no Christmas Day, e nao no Christmas Eve, como estamos acostumados. Vou passar o Natal em Londres, e o Ano Novo em Sete, no sul da Franca. Sendo assim, o Blog deve ficar desatualizado por uma semana. Prometo voltar com muita coisa pra contar, fotos da Franca e fotos da cozinha da Casalina!
Um beijo grande, e Feliz Natal!
Juliana.
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