Eu falo sozinha. Falo mesmo, sempre falei. Falo alto, como se estivesse conversando com alguem. Enquanto passeio no calcadao, no tempo em que tomo banho, durante meu expediente no trabalho. Lembro que uma colega do meu curso de graduacao detestava sentar na carteira da minha frente durante os exames: eu falava comigo mesma o tempo todo e ela nao conseguia se concentrar.
Ontem foi um dia daqueles. Perdi o onibus logo cedo, debaixo de chuva e vento fortes. Meu cartao de credito foi debitado duas vezes na minha conta corrente. O Inland Revenue perdeu um formulario importante que mandei pelo correio. Recebi uma carta da companhia de seguros dizendo que o meu "medico de familia" nao responde aos pedidos dela. Uma pessoa querida nao quer mais falar comigo.
Tudo isso pra contar que fui caminhando do escritorio ate em casa praguejando. Tenho certeza de que falei todos os palavroes do mundo, ate aqueles bem feios que nem eu mesma gosto muito. Andei recentemente incrementando meu vocabulario tosco com alguns termos em ingles. Diria que foi uma xingacao anglo-brasileira, entao. Mas, mesmo tendo sido meio ignorante, me fez bem. Entrei no hall de alma lavada.
Ao checar as correspondencias, fui surpreendida por um envelope enderecado a mim. Daqueles brasileirissimos - bem tradicional mesmo - com faixas verdes e amarelas e tudo. Antes de olhar o remetente, perdi uns segundos tentando adivinhar de quem poderia ser. Desisti rapido, tive medo de errar. Afinal, mais de uma amiga tinha me prometido escrever cartas. Mas so uma realmente escreveu. E e exatamente sobre isso que quero falar aqui.
Acabei de terminar de ler a edicao 51 da Revista TPM, cujo tema foi o Tempo. Nela, fala-se em velhice, morte, em como nos escondemos atras de uma suposta falta de tempo pela "falta de coragem de assumirmos nossa vagabundagem". Adorei esta frase. Copiei da Nina Lemos, nao pude evitar. Como ela, nao tenho duvidas de que todos nos trabalhamos bastante. Mas tambem tenho certeza de que todos temos tempo, sim.
A tal da carta tem quatro paginas. Minha amiga, dois empregos, casa, familia. E disposicao suficiente para escrever, coincidentemente, sobre o Tempo. Sobre as folhas do papel de carta que, de tao velhas, estao amarelas. Sobre termos nos acostumado com a impessoalidade do dia-a-dia. Sobre nao pararmos um minuto sequer para pensarmos na vida. Sobre termos caibras nas maos por termos perdido o habito de escrever sem a ajuda de um teclado de computador. Sobre rotina. Sobre saudades.
Eu sou do tipo que valoriza coisas simples. Nesta semana foi a carta, na semana passada um calendario. Ja recebi camiseta, cds, cartoes postais, cartoes de Natal. Todos vindos de amigos que trabalham muito. Mas que nao precisam mentir que estao sem tempo pra nada so porque e cool e bem mais facil do que escrever uma carta com quatro paginas.
Um beijo grande, fiquem bem!
Juliana.
30 março 2006
04 março 2006
Gente esquisita
Ta bom, ta bom. Admito. Ate que e legalzinho morar no Brasil. A gente sente isso principalmente depois que passa um tempo fora. O contraste da falta de cerimonia com a qual estamos acostumados la e bem grande com relacao a toda a formalidade que temos aqui no Reino Unido.
Um bom exemplo sao os tais "sorry" que ouvimos o tempo todo. Na fila do supermercado, numa andanca no calcadao, dentro do onibus. Os ingleses sao tao paranoicos com essa coisa de se desculparem o tempo todo por tudo, que o negocio ja e automatico: mesmo que voce pise sem querer no joanete deles, sao eles que te pedem desculpas. Com cara de choro e tudo. Chega a ser patetico. Como e um ato inconsciente, da pra perceber que a reacao nao tem um pingo de emocao, ou seja, eles nao sentem muito por nada, so estao seguindo mais uma das regras de boas maneiras que aprenderam na infancia. Pra falar a verdade, acho que pisariam no teu calo se pudessem. De proposito.
A gente percebe isso quando algum deles se enche e solta a franga pra se libertar. Eu acho que no fundo no fundo nem os britanicos gostam muito de serem tachados de integros e irrepreensiveis. Queira ou nao, a carga emocional que vem junto com a obrigacao de serem perfeitos e grande, e nem todo mundo lida bem com isso. Um bom exemplo sao os desordeiros hooligans, que libertam adrenalina agindo com violencia contra torcedores do time adversario. Embora sejam agressivos num ambiente sobre o qual tem controle, podem apostar que fazem parte do rol dos que se desculpam ao te empurrar sem querer na fila do banco.
E engracado perder um tempo reparando nos contrastes do comportamento deles. Minha caderneta e cheia de topicos relacionados a isso: nao me canso de passar uma tarde por semana numa coffee shop, lendo meus livros e reparando na maneira como eles agem. Da pra colher um material e tanto, sem ter que se esforcar muito. Ao mesmo tempo em que sao cheios de normas de etiqueta, nao hesitam em enfiar a mao na boca e cavocar ate encontrar a alface que ficou presa nos dentes, provavelmente desde a hora do almoco. Nem pensam duas vezes antes de fazer isso na tua frente. Nao se preocupam em disfarcar ao limpar as maos na calca, nem ao comer de boca aberta, nem ao assoar o nariz. Um horror.
Aqui nao se tem o habito de usar guardanapo durante as refeicoes. Como ja sei de antemao, carrego comigo papel-toalha pra mesa, ja que e a unica opcao disponivel. Deve ser alguma coisa como tomar banho de banheira, outro costume que nao entendo. Os ingleses devem nascer com um opcional que os ensina a gerenciar essas duas coisas bem: por mais que eu tente, nao consigo fazer um, nem outro direito. Tenho certeza que e porque nao sei o jeito certo.
Tem outra coisa que - pelo visto - e um habito por aqui. Eles usam lencos de pano para assoar o nariz - o mesmo que limpa as maos e as frutas na hora do almoco -, o que nao e muito comum ai no Brasil. A parte curiosa e que nao guardam o lenco no bolso, mas sim dentro da manga da camisa. Todo embolado, um negocio muito estranho mesmo.
Como os ingleses sao um povo esquisitao, com habitos esquisitoes, nada mais obvio que tenham atitudes esquisitonas tambem. Bom pra mim que, a cada domingo no Starbucks Coffee Company, encho meu livrete com mais ideias de posts para atualizar o "Comida Nao Entra" ;).
Beijos para todos!
Juliana.
PS Aqui no hemisferio norte, primavera e horario de verao a vista, nem acredito!
Um bom exemplo sao os tais "sorry" que ouvimos o tempo todo. Na fila do supermercado, numa andanca no calcadao, dentro do onibus. Os ingleses sao tao paranoicos com essa coisa de se desculparem o tempo todo por tudo, que o negocio ja e automatico: mesmo que voce pise sem querer no joanete deles, sao eles que te pedem desculpas. Com cara de choro e tudo. Chega a ser patetico. Como e um ato inconsciente, da pra perceber que a reacao nao tem um pingo de emocao, ou seja, eles nao sentem muito por nada, so estao seguindo mais uma das regras de boas maneiras que aprenderam na infancia. Pra falar a verdade, acho que pisariam no teu calo se pudessem. De proposito.
A gente percebe isso quando algum deles se enche e solta a franga pra se libertar. Eu acho que no fundo no fundo nem os britanicos gostam muito de serem tachados de integros e irrepreensiveis. Queira ou nao, a carga emocional que vem junto com a obrigacao de serem perfeitos e grande, e nem todo mundo lida bem com isso. Um bom exemplo sao os desordeiros hooligans, que libertam adrenalina agindo com violencia contra torcedores do time adversario. Embora sejam agressivos num ambiente sobre o qual tem controle, podem apostar que fazem parte do rol dos que se desculpam ao te empurrar sem querer na fila do banco.
E engracado perder um tempo reparando nos contrastes do comportamento deles. Minha caderneta e cheia de topicos relacionados a isso: nao me canso de passar uma tarde por semana numa coffee shop, lendo meus livros e reparando na maneira como eles agem. Da pra colher um material e tanto, sem ter que se esforcar muito. Ao mesmo tempo em que sao cheios de normas de etiqueta, nao hesitam em enfiar a mao na boca e cavocar ate encontrar a alface que ficou presa nos dentes, provavelmente desde a hora do almoco. Nem pensam duas vezes antes de fazer isso na tua frente. Nao se preocupam em disfarcar ao limpar as maos na calca, nem ao comer de boca aberta, nem ao assoar o nariz. Um horror.
Aqui nao se tem o habito de usar guardanapo durante as refeicoes. Como ja sei de antemao, carrego comigo papel-toalha pra mesa, ja que e a unica opcao disponivel. Deve ser alguma coisa como tomar banho de banheira, outro costume que nao entendo. Os ingleses devem nascer com um opcional que os ensina a gerenciar essas duas coisas bem: por mais que eu tente, nao consigo fazer um, nem outro direito. Tenho certeza que e porque nao sei o jeito certo.
Tem outra coisa que - pelo visto - e um habito por aqui. Eles usam lencos de pano para assoar o nariz - o mesmo que limpa as maos e as frutas na hora do almoco -, o que nao e muito comum ai no Brasil. A parte curiosa e que nao guardam o lenco no bolso, mas sim dentro da manga da camisa. Todo embolado, um negocio muito estranho mesmo.
Como os ingleses sao um povo esquisitao, com habitos esquisitoes, nada mais obvio que tenham atitudes esquisitonas tambem. Bom pra mim que, a cada domingo no Starbucks Coffee Company, encho meu livrete com mais ideias de posts para atualizar o "Comida Nao Entra" ;).
Beijos para todos!
Juliana.
PS Aqui no hemisferio norte, primavera e horario de verao a vista, nem acredito!
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