Nunca tinha parado pra pensar que talvez o fato de a gente repetir incansavelmente que somos pobres e limpinhos tivesse fundamento.
Divido o banheiro do segundo andar com mais dois europeus. Um deles e uma espanhola queridissima com quem me dei bem desde que cheguei. Sempre que podemos perdemos uns minutos conversando sobre amenidades. Digo isso porque nem sempre e possivel: ela trabalha durante a noite, eu durante o dia. Ela folga no meio da semana, eu nos finais de semana. Ela janta tarde, eu cedo. Vez ou outra a gente se encontra. O outro e um estudante ingles pos-adolescente tipico: recebe torpedos no celular a cada cinco minutos durante toda a madrugada, conversa por horas ao telefone, fala rapido, corre para subir e descer as escadas, adora comer salsicha. Ah, e e ruivo. Claro.
Como toda pessoa observadora - embora nao esteja na minha propria casa - presto muita atencao em tudo ao meu redor. Sei dizer quando as coisas mudaram de lugar, por exemplo. Ou se tem algum objeto faltando ou sobrando em determinado ambiente. Coisas de gente metodica. Fazer o que.
Semana passada invoquei com a tampa do ralo da banheira. Deve ser porque eu nao gosto de banheira (eu e a espanhola usamos o chuveiro do banheiro no primeiro andar), ou porque, pela primeira vez em tres semanas, escutei o meu flatmate enche-la para tomar banho. Desde entao fiquei controlado a disposicao de todos os objetos relacionados ao banho dele: nada mudou de lugar por uma semana. Tudo ficou ali, intacto, exatamente na mesma posicao. Sendo assim, descobri que aqui no Reino Unido nao se toma banho aos sabados, como costumamos fazer piadas no Brasil, mas sim as segundas. E tambem que aqui so se toma banho uma vez por semana. E olhe la.
Nao sei qual a razao para os ingleses terem tanta necessidade de serem diferentes. Vim preparada para conviver pacificamente com a mao inglesa, mas nunca imaginei que as tomadas de tres pinos me dariam tanto trabalho. Tive que comprar outro secador de cabelo. O meu, americano, se recusou a funcionar. Alem disso, aqui se janta na hora do almoco e se almoca na hora da janta; se compra com Libras ao inves de Euros; se usa 220V ao inves de 110V; se abre latas ao inves de cozinhar de verdade; se veste calca social para trabalhar, ao inves de jeans; se corre na rua, ao inves de andar. Ninguem vai a manicure todo sabado. Tampouco escova os dentes na hora do almoco.
Fora isso, o sistema casa-comida-roupa lavada tem funcionado bem. Me sinto muito a vontade em casa (outra coisa esquisita: as casas aqui tem nome, a minha, por exemplo, se chama Casalina), o que e muito bom. So que, numa proxima oportunidade, vou procurar um lugar que ofereca casa-comida-roupa lavada e passada. Coisa chata esse negocio de passar roupa!
Miss you!
Juliana.
07 dezembro 2005
27 novembro 2005
Semi-adaptada
Me atrasei, eu sei. Juro que tentei manter a atualizacao do Blog como parte da minha rotina, mas foi impossivel. Desde que passei o final de semana na praia (para me despedir do mar pessoalmente, eu nao poderia ter deixado para segundo plano!) minha vida tem estado enlouquecida. Meu visto de permanencia saiu naquela mesma semana, meu apartamento e carro foram vendidos, nunca frequentei tantos consultorios medicos e saloes de beleza num periodo tao curto. A mudanca de pais realmente me tomou muito tempo. Tanto que sai sem me despedir de muita gente.
Deixei o Brasil tranquila. Todas as minhas pendencias - com excecao de algumas bem burocraticas que envolvem o governo brasileiro - foram resolvidas. Tudo bem, nada que eu nao possa esclarecer daqui, com mais calma. O mais importante foi que eu consegui me despedir todas as pessoas que amo antes de vir embora: em almocos informais, jantares super especiais, barzinhos, cafes, em uma feijoada m-a-r-v-i-l-h-o-s-a num sabado na hora do almoco, em uma roda de chimarrao em pleno aeroporto de Guarulhos. Quer coisa mais brasileira do que isso? Poder abracar com carinho e dizer que vai sentir saudades? Amei!
A viagem foi, literalmente, turbulenta. A tripulacao parecia estar esgotada: todos muito mau-humorados, tudo parecia ser um sacrificio. Pra ajudar, meu vizinho de assento era fumante e tinha cheiro de cinzeiro. E ainda fiquei sentada perto da copa, onde a movimentacao e ininterrupta durante o voo. Ou seja: nao dormi nada.
Minha primeira semana aqui foi uma loucura. Passei a maior parte do tempo preenchendo formularios e me registrando em algum lugar: no escritorio de imigracao, no banco, na operadora de telefone movel, na biblioteca, no "medico de familia", na agencia de transito (sim, vou dirigir!), na escola de ingles, no seguro social, e por ai vai. Muito chato, mas absolutamente necessario. Fazer o que.
Tanto o trabalho quanto a acomodacao tem correspondido perfeitamente as expectativas, mas ainda prefiro me preservar e nao registrar nenhuma opiniao a respeito. Como tendemos a ser muito receptivos as novidades, a realidade pode ficar um pouco distorcida neste caso. Quem sabe na proxima entrada.
Para quem achou que eu ia comer mal, se enganou. Para minha sorte, minha anfitria adora cozinhar, e esta sempre as voltas com livros e revistas de culinaria. Meus jantares sao sempre muito variados e bem balanceados, minha nutricionista iria adorar. Ja no almoco comemos um lanche. Aqui mesmo, no escritorio. E so sair do predio, andar um pouco e escolher entre as centenas de ofertas: tamanha variedade ate me confunde, as vezes. Mesmo assim, a partir da semana que vem vou preparar meu proprio sanduiche: os que compramos prontos sao deliciosos, mas muito caloricos e caros. Chegam a custar ate cinco vezes mais! Pra voces terem uma ideia de como servicos sao caros por aqui.
Vai depender do comportamento da minha rotina, mas tudo indica que vou poder escrever com mais frequencia. Tenho tanta informacao pra colocar aqui e ao mesmo tempo nao tenho nenhuma, realmente uma sensacao muito esquisita. Sendo assim, para nao ficar perdida, comprei uma caderneta onde anoto tudo que vem a cabeca: detalhes das minhas idas ao supermercado, das minhas andancas pelo centro da cidade, dos habitos de dentro de casa. Vamos ver se, com toda essa iniciativa, consigo preparar um material de qualidade para voces!
Beijo grande, fiquem bem!
Juliana.
Deixei o Brasil tranquila. Todas as minhas pendencias - com excecao de algumas bem burocraticas que envolvem o governo brasileiro - foram resolvidas. Tudo bem, nada que eu nao possa esclarecer daqui, com mais calma. O mais importante foi que eu consegui me despedir todas as pessoas que amo antes de vir embora: em almocos informais, jantares super especiais, barzinhos, cafes, em uma feijoada m-a-r-v-i-l-h-o-s-a num sabado na hora do almoco, em uma roda de chimarrao em pleno aeroporto de Guarulhos. Quer coisa mais brasileira do que isso? Poder abracar com carinho e dizer que vai sentir saudades? Amei!
A viagem foi, literalmente, turbulenta. A tripulacao parecia estar esgotada: todos muito mau-humorados, tudo parecia ser um sacrificio. Pra ajudar, meu vizinho de assento era fumante e tinha cheiro de cinzeiro. E ainda fiquei sentada perto da copa, onde a movimentacao e ininterrupta durante o voo. Ou seja: nao dormi nada.
Minha primeira semana aqui foi uma loucura. Passei a maior parte do tempo preenchendo formularios e me registrando em algum lugar: no escritorio de imigracao, no banco, na operadora de telefone movel, na biblioteca, no "medico de familia", na agencia de transito (sim, vou dirigir!), na escola de ingles, no seguro social, e por ai vai. Muito chato, mas absolutamente necessario. Fazer o que.
Tanto o trabalho quanto a acomodacao tem correspondido perfeitamente as expectativas, mas ainda prefiro me preservar e nao registrar nenhuma opiniao a respeito. Como tendemos a ser muito receptivos as novidades, a realidade pode ficar um pouco distorcida neste caso. Quem sabe na proxima entrada.
Para quem achou que eu ia comer mal, se enganou. Para minha sorte, minha anfitria adora cozinhar, e esta sempre as voltas com livros e revistas de culinaria. Meus jantares sao sempre muito variados e bem balanceados, minha nutricionista iria adorar. Ja no almoco comemos um lanche. Aqui mesmo, no escritorio. E so sair do predio, andar um pouco e escolher entre as centenas de ofertas: tamanha variedade ate me confunde, as vezes. Mesmo assim, a partir da semana que vem vou preparar meu proprio sanduiche: os que compramos prontos sao deliciosos, mas muito caloricos e caros. Chegam a custar ate cinco vezes mais! Pra voces terem uma ideia de como servicos sao caros por aqui.
Vai depender do comportamento da minha rotina, mas tudo indica que vou poder escrever com mais frequencia. Tenho tanta informacao pra colocar aqui e ao mesmo tempo nao tenho nenhuma, realmente uma sensacao muito esquisita. Sendo assim, para nao ficar perdida, comprei uma caderneta onde anoto tudo que vem a cabeca: detalhes das minhas idas ao supermercado, das minhas andancas pelo centro da cidade, dos habitos de dentro de casa. Vamos ver se, com toda essa iniciativa, consigo preparar um material de qualidade para voces!
Beijo grande, fiquem bem!
Juliana.
03 novembro 2005
Alta fidelidade
Quem leu o livro Alta Fidelidade, escrito por Nick Hornby, ou viu o filme de mesmo nome, dirigido por Stephen Frears, sabe bem do que estou falando. Rob Gordon (vivido por John Cusack, que está realmente divertido no papel!), um trintão dono de uma loja de discos de vinil, escreve listas compulsivamente: ele faz o top five de tudo, até dos seus piores fins de relacionamento - hehe!
Não cheguei a esse ponto, mas quase: tenho tido sempre papel e caneta à mão, para anotar tudo que me vem à cabeça. Coisas para comprar, lugares pra ir, aniversários para lembrar. Tudo isso devidamente rabiscado em algum lugar. Mesmo que seja minha própria mão esquerda. Aquela coisa adolescente de não anotar nada e fazer um esforço supremo para lembrar depois não funciona mais. Acho que depois que completamos trinta anos e podemos ser chamadas de "balzaquianas" o nosso cérebro fica mais seletivo naturalmente: não só para filtrar quem merece fazer parte da nossa vida (que é o básico da maturidade, todas as revistas femininas menos conservadoras dizem isso!), mas para tudo que é banal e fútil também. Há quatro semanas estive em São Paulo e lembrei de algo inútil para fazer, coisa que achei que nem valeria a pena anotar porque seria fácil de "resgatar" depois. Obviamente não tinha a mínima idéia do que era passadas algumas horas. Hoje, muitas quartas-feiras depois, lembrei do que deveria ter feito: comprado Mentex. Bem, ainda dá tempo...
Pra ajudar, estou "meio" doente: tenho tossido horrores, e tudo que tenho feito pra melhorar parece não adiantar nada! Já foram dois vidros de xarope, uma caixa de pastilhas, muitos chás diferentes. Ainda não apelei pra reza braba, mas estou quase. Como meu otorrinolaringologista preferido é meu melhor amigo e tem acesso ao meu Blog, tenho que confessar (antes que ele deixe um comentário mal-criado aí embaixo!) que não fiz exatamente tudo o que me receitou: ficar em repouso tem sido impossível! Sério, bem que tenho tentado!
Minha passagem já foi marcada para daqui a onze dias, mas o Consulado - apesar de já ter descontado o cheque que paga a análise da minha papelada - ainda não se manifestou de nenhuma maneira, nem contra nem a favor da minha permanência no Reino Unido. Mesmo assim, minhas malas já estão abertas na sala de jantar. Sem nada dentro (de vez em quando um gato metido, apenas), ainda. Afinal, não terminei minhas listas!
Beijos, espero ter novidades na próxima entrada! Nem que seja pra dizer que, finalmente, comprei uma caixa de Mentex!
Juliana.
PS Se esse texto tivesse trilha sonora, seria "Bette Davis Eyes" de Donna Weiss e Jackie DeShannon.
Não cheguei a esse ponto, mas quase: tenho tido sempre papel e caneta à mão, para anotar tudo que me vem à cabeça. Coisas para comprar, lugares pra ir, aniversários para lembrar. Tudo isso devidamente rabiscado em algum lugar. Mesmo que seja minha própria mão esquerda. Aquela coisa adolescente de não anotar nada e fazer um esforço supremo para lembrar depois não funciona mais. Acho que depois que completamos trinta anos e podemos ser chamadas de "balzaquianas" o nosso cérebro fica mais seletivo naturalmente: não só para filtrar quem merece fazer parte da nossa vida (que é o básico da maturidade, todas as revistas femininas menos conservadoras dizem isso!), mas para tudo que é banal e fútil também. Há quatro semanas estive em São Paulo e lembrei de algo inútil para fazer, coisa que achei que nem valeria a pena anotar porque seria fácil de "resgatar" depois. Obviamente não tinha a mínima idéia do que era passadas algumas horas. Hoje, muitas quartas-feiras depois, lembrei do que deveria ter feito: comprado Mentex. Bem, ainda dá tempo...
Pra ajudar, estou "meio" doente: tenho tossido horrores, e tudo que tenho feito pra melhorar parece não adiantar nada! Já foram dois vidros de xarope, uma caixa de pastilhas, muitos chás diferentes. Ainda não apelei pra reza braba, mas estou quase. Como meu otorrinolaringologista preferido é meu melhor amigo e tem acesso ao meu Blog, tenho que confessar (antes que ele deixe um comentário mal-criado aí embaixo!) que não fiz exatamente tudo o que me receitou: ficar em repouso tem sido impossível! Sério, bem que tenho tentado!
Minha passagem já foi marcada para daqui a onze dias, mas o Consulado - apesar de já ter descontado o cheque que paga a análise da minha papelada - ainda não se manifestou de nenhuma maneira, nem contra nem a favor da minha permanência no Reino Unido. Mesmo assim, minhas malas já estão abertas na sala de jantar. Sem nada dentro (de vez em quando um gato metido, apenas), ainda. Afinal, não terminei minhas listas!
Beijos, espero ter novidades na próxima entrada! Nem que seja pra dizer que, finalmente, comprei uma caixa de Mentex!
Juliana.
PS Se esse texto tivesse trilha sonora, seria "Bette Davis Eyes" de Donna Weiss e Jackie DeShannon.
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