30 março 2006

Todos temos tempo

Eu falo sozinha. Falo mesmo, sempre falei. Falo alto, como se estivesse conversando com alguem. Enquanto passeio no calcadao, no tempo em que tomo banho, durante meu expediente no trabalho. Lembro que uma colega do meu curso de graduacao detestava sentar na carteira da minha frente durante os exames: eu falava comigo mesma o tempo todo e ela nao conseguia se concentrar.

Ontem foi um dia daqueles. Perdi o onibus logo cedo, debaixo de chuva e vento fortes. Meu cartao de credito foi debitado duas vezes na minha conta corrente. O Inland Revenue perdeu um formulario importante que mandei pelo correio. Recebi uma carta da companhia de seguros dizendo que o meu "medico de familia" nao responde aos pedidos dela. Uma pessoa querida nao quer mais falar comigo.

Tudo isso pra contar que fui caminhando do escritorio ate em casa praguejando. Tenho certeza de que falei todos os palavroes do mundo, ate aqueles bem feios que nem eu mesma gosto muito. Andei recentemente incrementando meu vocabulario tosco com alguns termos em ingles. Diria que foi uma xingacao anglo-brasileira, entao. Mas, mesmo tendo sido meio ignorante, me fez bem. Entrei no hall de alma lavada.

Ao checar as correspondencias, fui surpreendida por um envelope enderecado a mim. Daqueles brasileirissimos - bem tradicional mesmo - com faixas verdes e amarelas e tudo. Antes de olhar o remetente, perdi uns segundos tentando adivinhar de quem poderia ser. Desisti rapido, tive medo de errar. Afinal, mais de uma amiga tinha me prometido escrever cartas. Mas so uma realmente escreveu. E e exatamente sobre isso que quero falar aqui.

Acabei de terminar de ler a edicao 51 da
Revista TPM, cujo tema foi o Tempo. Nela, fala-se em velhice, morte, em como nos escondemos atras de uma suposta falta de tempo pela "falta de coragem de assumirmos nossa vagabundagem". Adorei esta frase. Copiei da Nina Lemos, nao pude evitar. Como ela, nao tenho duvidas de que todos nos trabalhamos bastante. Mas tambem tenho certeza de que todos temos tempo, sim.

A tal da carta tem quatro paginas. Minha amiga, dois empregos, casa, familia. E disposicao suficiente para escrever, coincidentemente, sobre o Tempo. Sobre as folhas do papel de carta que, de tao velhas, estao amarelas. Sobre termos nos acostumado com a impessoalidade do dia-a-dia. Sobre nao pararmos um minuto sequer para pensarmos na vida. Sobre termos caibras nas maos por termos perdido o habito de escrever sem a ajuda de um teclado de computador. Sobre rotina. Sobre saudades.

Eu sou do tipo que valoriza coisas simples. Nesta semana foi a carta, na semana passada um calendario. Ja recebi camiseta, cds, cartoes postais, cartoes de Natal. Todos vindos de amigos que trabalham muito. Mas que nao precisam mentir que estao sem tempo pra nada so porque e cool e bem mais facil do que escrever uma carta com quatro paginas.

Um beijo grande, fiquem bem!
Juliana.

04 março 2006

Gente esquisita

Ta bom, ta bom. Admito. Ate que e legalzinho morar no Brasil. A gente sente isso principalmente depois que passa um tempo fora. O contraste da falta de cerimonia com a qual estamos acostumados la e bem grande com relacao a toda a formalidade que temos aqui no Reino Unido.

Um bom exemplo sao os tais "sorry" que ouvimos o tempo todo. Na fila do supermercado, numa andanca no calcadao, dentro do onibus. Os ingleses sao tao paranoicos com essa coisa de se desculparem o tempo todo por tudo, que o negocio ja e automatico: mesmo que voce pise sem querer no joanete deles, sao eles que te pedem desculpas. Com cara de choro e tudo. Chega a ser patetico. Como e um ato inconsciente, da pra perceber que a reacao nao tem um pingo de emocao, ou seja, eles nao sentem muito por nada, so estao seguindo mais uma das regras de boas maneiras que aprenderam na infancia. Pra falar a verdade, acho que pisariam no teu calo se pudessem. De proposito.

A gente percebe isso quando algum deles se enche e solta a franga pra se libertar. Eu acho que no fundo no fundo nem os britanicos gostam muito de serem tachados de integros e irrepreensiveis. Queira ou nao, a carga emocional que vem junto com a obrigacao de serem perfeitos e grande, e nem todo mundo lida bem com isso. Um bom exemplo sao os desordeiros hooligans, que libertam adrenalina agindo com violencia contra torcedores do time adversario. Embora sejam agressivos num ambiente sobre o qual tem controle, podem apostar que fazem parte do rol dos que se desculpam ao te empurrar sem querer na fila do banco.

E engracado perder um tempo reparando nos contrastes do comportamento deles. Minha caderneta e cheia de topicos relacionados a isso: nao me canso de passar uma tarde por semana numa coffee shop, lendo meus livros e reparando na maneira como eles agem. Da pra colher um material e tanto, sem ter que se esforcar muito. Ao mesmo tempo em que sao cheios de normas de etiqueta, nao hesitam em enfiar a mao na boca e cavocar ate encontrar a alface que ficou presa nos dentes, provavelmente desde a hora do almoco. Nem pensam duas vezes antes de fazer isso na tua frente. Nao se preocupam em disfarcar ao limpar as maos na calca, nem ao comer de boca aberta, nem ao assoar o nariz. Um horror.

Aqui nao se tem o habito de usar guardanapo durante as refeicoes. Como ja sei de antemao, carrego comigo papel-toalha pra mesa, ja que e a unica opcao disponivel. Deve ser alguma coisa como tomar banho de banheira, outro costume que nao entendo. Os ingleses devem nascer com um opcional que os ensina a gerenciar essas duas coisas bem: por mais que eu tente, nao consigo fazer um, nem outro direito. Tenho certeza que e porque nao sei o jeito certo.

Tem outra coisa que - pelo visto - e um habito por aqui. Eles usam lencos de pano para assoar o nariz - o mesmo que limpa as maos e as frutas na hora do almoco -, o que nao e muito comum ai no Brasil. A parte curiosa e que nao guardam o lenco no bolso, mas sim dentro da manga da camisa. Todo embolado, um negocio muito estranho mesmo.

Como os ingleses sao um povo esquisitao, com habitos esquisitoes, nada mais obvio que tenham atitudes esquisitonas tambem. Bom pra mim que, a cada domingo no
Starbucks Coffee Company, encho meu livrete com mais ideias de posts para atualizar o "Comida Nao Entra" ;).

Beijos para todos!
Juliana.

PS Aqui no hemisferio norte, primavera e horario de verao a vista, nem acredito
!

25 fevereiro 2006

Coisa de crianca

*Este Post foi publicado originalmente no o.quindim.

Faz dias que tenho exaurido meu cerebro procurando a origem da minha paixao pela gastronomia, mas nao tenho tido sucesso: boas lembrancas me vem a memoria, mas nao tenho conseguido precisar o exato momento de quando a minha apatia deu lugar a todo esse encanto, que me faz cravar os olhos dentro da cozinha de um restaurante quando algum garcom descuidado esquece a porta aberta.

Ja e seculo 21 e uma das minhas avos ainda cozinha em fogao a lenha. Ela e neta de italianos e, embora nunca tenha tirado o pe do Brasil e tambem tenha um fogao a gas na cozinha, ainda conserva algumas caracteristicas bem marcantes no que diz respeito a culinaria: faz polenta no tacho, pao caseiro, usa ingredientes sazonais (todos vindos do quintal enorme que ela tem em casa), da preferencia a cardapios tradicionais ao inves daqueles cheios de novidades e iguarias da moda. Uma maluquice, a julgar pelo tanto que temos evoluido nos ultimos anos, quando se fala de de gastronomia ou mesmo de cozinha regional.

Ao contrario de todas as avos que conheco, nunca teve na cozinha os seus melhores predicados. E cheia de boas intencoes, mas tem coisas que prepara que nao consigo provar nem com reza braba, mesmo sendo super curiosa com relacao a comida. Lembro de uma vez - quando ainda era crianca - quando tive que fazer um sacrificio para experimentar cascas de batatas fritas, e de tentar encontrar alguma similaridade entre as tais cascas com as proprias batatas. Foi impossivel, aquilo pra mim eram cascas e pronto. E olha que sou pouco exigente com batatas fritas, ja que nem sou fa. Com certeza nao foi dai que herdei o paladar refinado. Mas foi na horta e pomar sempre bem conservados que aprendi a colher cenouras e rabanetes, a identificar um pe de alecrim entre os de salvia, a apanhar morangos e figos, a diferenciar aracas de guabirobas. Ja comi cereja e ervilha torta colhidos no mesmo instante. Ja fritei ovos recem-postos. E a minha infancia inteira foi assim: entre pes de tomate e o galinheiro, entre a serraria (de onde vinha a lenha que abastecia o fogao) e massas de pao.

A primeira comida que aprendi a fazer sozinha foi arroz branco. Eu cozinhava o tal arroz para acompanhar um frango xadrez que o meu pai preparava, quando tambem comecou a se aventurar na cozinha, muito antes de ser o gastronomo que e hoje. Foi ai, tambem, que ganhei meu primeiro livro de culinaria. Lembro que, mesmo sendo crianca, achei meio simples demais: pra quem ja aprontava comida fresquinha, preparada no fogao, os sanduiches de atum pareciam muito pouco desafiadores. Naquela epoca eu so tinha sete anos de idade, nos dois evoluimos muito desde entao. O frango xadrez ainda da o ar da graca de vez em quando. Mas eu ja fui "promovida" ha muito tempo: tenho outras responsabilidades - como preparar a entrada ou a sobremesa - em vez de apenas tomar conta do tal arroz.

Desde aquela epoca meu interesse pelo mundo da cozinha so cresceu. Nao me contento mais em preparar um prato sem conhecer um pouco sobre a historia dos alimentos, sobre a origem de cada uma das iguarias que constituem a refeicao. Embora tenha dezenas de livros de culinaria, continuo abastecendo a minha biblioteca com compras impulsivas. Leio revistas que tem como publico-alvo donos de restaurante, bibliografias de cozinheiros, flogs escritos por outros gastronomos caprichosos. Sou criteriosa ao escolher um lugar pra comer. Nao como nada que seja sofrivel ou insosso. E por ai vai.

E foi assim. Desde ajudar a ajudar a escolher feijao ate fazer massa de talharim em casa, fui, aos poucos, me apaixonando. Nao sei dizer quando isso aconteceu exatamente, mas nao me importo. Ja sou bem feliz assim!

Juliana.