26 janeiro 2007

Adeus, Casalina!

[Armario desorganizado da Casalina]

Aqui na Inglaterra e assim. Todas as casas sao numeradas e algumas sao nomeadas. Essa coisa de se dar nomes as casas comecou ha muito tempo - quando os ricos comecaram a querer diferenciar suas propriedades das dos outros - e continuou com o passar dos anos. Hoje em dia, ate o proletariado tem casas com nomes e numeros. A coisa toda ja nao e mais um privilegio so da burguesia inglesa. Faz tempo.
Parece brincadeira, mas nao e. Como ingles adora uma competicaozinha e parece ter diponibilidade pra todas essas bobagens, como nomear o jardim mais bonito, o cidadao mais patriota, a cenoura mais comprida cultivada em estufa (eu vi a tal cenoura numa feira agropecuaria no ano passado!), o diabo a quatro, claro que existe um ranking com os cinquenta nomes de casas mais populares por aqui. Liderando, esta o The Cottage ou A Casa de Campo, meio que querendo traduzir o que nao se traduz. Por ultimo, Oaklands. A casa onde eu morava - a das costeletas! - se chama Casalina. Pelo que sei, e o nome de uma vilazinha em algum lugar da Italia.
Como tudo por aqui, segue um padrao. Os nomes das casas sao inspirados em lugares, historia local, literatura e lendas. Fica ate divertido escrever o endereco do destinatario de correspondencias aqui no Reino Unido. Para Fulano de Tal, Celeiro da Andorinha (ou Os Salgueiros ou Vista do Prado ou Casa do Moinho ou O Ninho), Rua Tal, etc.
Casalina tinha numero tambem: dezesseis. Nunca usei o nome, mas tive oportunidades e achei melhor nao arriscar. Sempre preferi o modelo convencional - com numeros - adotado em 1765. Ja e dificil encontrar a tal casa procurando pelo numero, porque o quatorze fica do lado esquerdo da rua, fugindo a regra de que os numeros pares devem ficar do lado direito de quem esta de costas para o centro da cidade e, naturalmente, ao lado do dezesseis. Imaginem so o empenho do carteiro em encontrar a Casalina, que fica “logo ali”, ao lado do Pulo dos Esquilos.
Falar sobre rankings me fez lembrar um negocio curioso. Por aqui as competicoes tem os vencedores, os segundos colocados, os trabalhos - ou o que quer que seja - que valem a pena ser vistos e os que foram muito comentados. Perdedores voce nao encontra em lugar algum. Na semana passada estive em Bristol, visitando uma exposicao de fotografias sobre Vida Selvagem no Museu e Galeria de Arte da cidade, e nao consegui achar alguma que nao estivesse classificada numa daquelas categorias. Meio patetico, ate.
No mais, morar na nova casa tem sido bom. Esta nao tem nome, por ser uma townhouse. Neste caso, se nomeia o conjunto todo, como se, em vez de colocar o numero do condomínio, se colocasse o nome dele. Nada como O Pomar, mas ainda assim esquisito.
Faz cinco meses que deixei a Casalina, nunca mais voltei la e nem quero. Estou muito bem, obrigada, aqui onde estou. Minha casa e novinha em folha, bem iluminada, bem ventilada, bem localizada. Minha geladeira e limpinha, meu fogao tambem. Os vizinhos sao legais. O cinema e logo ali. E ninguem faz costeletas de porco pro jantar. Daqui eu nao saio, daqui ninguem me tira :)
Um beijao. Adorei estar de volta!
Juliana.

30 junho 2006

Abaixo as costeletas!

Que venha o verao! Dezessete horas de insolacao por dia. Sol a pino. Temperaturas em torno de trinta graus. Brisa. Agua mineral. Muita gente nas ruas, nos parques e nas pracas. Pernocas, pancas e pes de fora. Tempo de sobra pra praticar esportes. E costeletas de porco com barbecue sauce pra jantar. Ninguem merece. Ninguem mesmo.

Aqui e assim. Muita gente se exercita pouco. Pouca gente pratica muito exercicio. A equipe de triatlo da cidade corre e nada com menos frequencia do que eu, pra voces terem uma ideia. Os maratonistas treinam duas vezes por semana, apenas. E pode apostar que a maioria deles simpatiza com todas as frituras e gorduras que sao comidas com frequencia por aqui. Uma pena.

Hoje em dia, gracas a alguns health-conscious britanicos, o tradicional cafe da manha ingles tem sido substituido por refeicoes mais leves, como cereal matinal e torradas, por exemplo. Embora ainda represente uma parcela importante no conceito ingles de refeicao matutina, alguns britons tem encarado os fry-ups como sendo uma refeicao esporadica, que aparece vez ou outra nos cardapios das residencias durante os fins de semana. Se o cafe da manha for acompanhado de suco de laranja e cha ou cafe em abundancia, ou mesmo se for composto apenas de bacon, ovos e torradas, costuma ser encarado como um inicio mais do que satisfatorio para um dia de trabalho ou lazer. Bem. Eu, particularmente, me satisfaco com um bom copo de leite.

Voltando ao fry-up. Os ingredientes variam de acordo com a regiao. A refeicao e composta basicamente de bacon e ovos, tradicionalmente fritos. Alguns dos ingredientes adicionais sao: torradas ou fatias de pao fritas, linguicas, tomates grelhados, cogumelos (grelhados tambem!), black pudding e baked beans. Alem dos hoteis - que preparam tudo isso para os turistas -, muitos greasy spoons (restaurantes pequenos, baratos e nada higienicos, especializados em frituras, que normalmente atendem a classe operaria) servem o tradicional cafe da manha ingles durante todo o dia. Bom pra quem gosta.

Aqui e assim. Um ou outro gato pingado liga pro que come. Como a esperanca e a ultima que morre, achei que o verao pudesse deixar os ingleses mais conscientes. Que nada! Balela! As cadeias de fast-food continuam lotadas. Na casa onde moro, por exemplo. De vez em quando temos salada a mesa. Quando muito, alface, tomates e pepinos. Em compensacao, comida oleosa e gordurosa e abundante. Sobram costeletas, bistecas e batatas.

A historia das costeletas de porco com barbecue sauce aconteceu mesmo. Os acompanhamentos eram espigas de milho e hash brown potatoes. Nem sinal de hortalicas ou verduras na geladeira, muito menos a mesa. Era domingo a noite, estava calor pra burro. Eu tinha acabado de chegar de um fim de semana natureba, regado a exercicios fisicos e muita agua mineral. Mesmo assim, jantei tudinho, nao tive como escapar. E fiquei emputecida. Nao posso negar.

Resultado? Estou de mudanca!

Beijao!
Juliana.

05 junho 2006

"Piqueniquei"!

Faltam dezesseis dias para o verao comecar oficialmente e tenho de confessar que ainda nao consigo confiar na previsao do tempo. Estava tentando organizar um piquenique desde o comeco deste mes, mas nao tinha conseguido relaxar e simplesmente arriscar. A falta de previsibilidade do clima incomoda os ingleses profundamente. Eu nunca tinha reparado nisso ate ler um dos livros de Marcello Rollemberg, no qual ele descreve - com muito humor e ironia - o quanto o imprevisivel incomoda uma nacao que tem mania de querer exercer controle sobre tudo. Nao sei dizer se ja estou incorporando algumas das excentricidades britanicas, mas essa incerteza toda me incomoda tambem. E muito.

Sabado passado os termometros indicaram 25ºC pela primeira vez em meses e todo mundo enlouqueceu. Os estoques de carne para churrasco dos supermercados acabaram em minutos. Os parques e pracas lotaram. Consegui - finalmente! - sair para o tal piquenique.

Tem gente que descreve Cheltenham como sendo a town within a park. Nao e pra menos: os parques, jardins e avenidas daqui sao bonitos mesmo! Entre muitas opcoes, escolhi Leckhampton Hill. E uma montanha que fica ao sul da cidade e pertence a uma area chamada Cotswolds. O lugar atrai muita gente, tanto residentes quanto visitantes. Por ser uma reserva natural, tem muito o que se ver por la: animais e flores selvagens, formacoes rochosas interessantes, alem de paragliders e uns gatos pingados fazendo piquenique, como eu. Todo o local e muito bem conservado tambem. Pelo que sei, voluntarios trabalham na manutencao da reserva pelo menos duas vezes por mes.

Seguindo os
conselhos da Fernanda, "piqueniqueira"-de-mao-cheia, comprei pao, queijo, salame, salada, azeitonas recheadas, suco de frutas e agua. Como nada pode ser planejado com muita antecedencia por aqui e piqueniques sao eventos mais do que descontraidos, tive que abrir mao dos guardanapos e da toalha, o que nao foi tarefa facil. Mesmo assim sobrevivi lambendo os dedos, embora nao seja a minha pratica favorita. E nao ofereci nenhuma resistencia a ter que subir e descer do monte, mesmo estando usando escarpins! Tudo muito brega para os padroes brasileiros, mas nada alem do que e normal por aqui. Pelo jeito mantive o padrao, ao ter me bronzeado vestindo camiseta tambem. Fui passear no calcadao no dia seguinte e pude perceber nao ter sido a unica. Ufa!

Neste mesmo dia jantei churrasco. Eu e a cidade inteira, a julgar pela quantidade de fumaca que eu conseguia ver de onde estava, sentada no quintal de casa. O primeiro desde que cheguei, diga-se de passagem. Churrasco aqui - sem contar hamburgueres e salsichas, claro - significa espetinhos de carneiro, sobrecoxas de frango, files de peixe e vinho branco. Nada proximo de cerveja geladissima e picanha mal-passada as quais estamos acostumados. Fazer o que, ne? Nao se pode ter tudo :)

Os dias continuam ensolarados e, pelo que tudo indica, teremos uma boa semana pela frente. Nada para se animar, claro. Para infelicidade geral da nacao - quase parafraseando Dom Pedro I no Dia do Fico - o tempo, meus caros, ninguem controla. Nem o mais conservador dos britanicos!

Um beijao. Estava com saudades!
Juliana.