Acabei de perceber que o abacaxi que comprei tem uma etiqueta que diz: "Preparation guidelines: Remove crown and outer skin whit a sharp knife. Cut away core and chop the flesh into cubes or slice into rings.". Ja comprei manga que veio com instrucoes de uso. Kiwi tambem.
Eu me divirto! :)
Juliana.
21 fevereiro 2007
04 fevereiro 2007
Um dia que parece uma duzia
O despertador toca as 6 horas da manha no sabado. Praguejo. E praguejo de novo. E de novo. Eu nao funciono bem de manha, nao sei porque insisto em comprar a passagem das 7:30!
Penso em ficar na cama e cancelar todos os compromissos que marquei mas, como sei que sempre sou assim pela manha, ignoro a mim mesma e dou sequencia ao ritual matinal. Nem preciso dizer que estou num mau humor de cobra pisada. Meio fotofobica, meio dormindo acordada - mas ao mesmo tempo com um olho no relogio para ter certeza de que nao vou perder o onibus -, sento na cama. Me localizo no tempo e no espaco, visto meu chinelinho e solto um grunhido, efeito da aula de body pump da quarta-feira anterior em cada musculo do meu corpo. Sera o Benedito? Ja tenho duas coisas pra anotar no meu Moleskine. E olha que ainda estou no segundo paragrafo! Uma: nao compre a passagem das 7:30. Duas: nao faca aula de body pump e va correr depois.
A caminho do banheiro, torco pra nao encontrar alguem. Nao tem coisa pior pra quem nao gosta de conversar de manha do que quem levanta bem humorado. Eu detesto dar "Bom dia!" e so pego no tranco depois de copo de cafe preto la pelas 9:00. Bem, preces atendidas. Eu devo ser a unica pessoa acordada no quarteirao inteiro. Wheeeee!
Tomo meu copo de leite com Ovaltine (momento cultural: quando o Ovomaltine, produto desenvolvido na Suica, foi exportado para a Inglaterra em 1909, houve um "probleminha" no processo de registro da marca e o nome acabou ficando assim!), coloco uma barra de cereais na bolsa e saio.
Sou uma as primeiras a chegar na rodoviaria. Um porque ela fica bem pertinho daqui de casa. Outra porque essa coisa de ingles ser pontual e mentira deslavada. A sala de espera esta sempre trancada e o cenario e sempre o mesmo: eu do lado de fora - quase sempre azeda e congelando - e uma dezena de cadeiras plasticas verdes vazias, repousando no quentinho, parecendo arquibancada de jogo da segunda divisao do Brasileirao. Geez, sala de espera pra quem esperar o que?
Fico me ensaiando pra ir ate a esquina comprar um cafe com leite take-away, mas nao vou. Eu nunca sou a primeira a entrar no onibus nem mesmo quando chego antes de todos os outros passageiros, imaginem se resolver atravessar a rua e voltar depois. Capaz de ir sentada na frente do banheiro ou ao lado do motorista. Ou na frente de uma velhinha. Isso sim e de matar!
Deusquemeperdoe, mas todas as experiencias que tive ate hoje com velhinhas, velhinhos e afins foram pessimas. Tirando a de um espanhol - que ficou reclamando a viagem inteira que o meu banco reclinado estava apertando o joelho dele -, as velhinhas tem roubado a cena em todas as minhas viagens de ida e volta a Londres. Elas tem os direitos delas, eu sei, mas viajar com a bagagem no colo e demais.
Desta vez e um casal. Tamanho o trauma, eu olho varias vezes antes de reclinar meu banco, pra nao acontecer de amassar a pera, o suco, o jornal, o que for. Abaixo devagar, camera lenta mesmo. Bastou eu errar na mao e o encosto rocar no joelho da dita cuja, soa o alarme: "Ela, ela, foi ela!". Ninguem sossega enquanto eu nao apago o fogo, digo, enquanto nao levanto o banco para a posicao mais ereta possivel. Eu, parecendo que estou numa aula de ioga. Eles, abracados na mala, nos sanduiches e nos livros, bem confortaveis. Sempre.
E la se vao duas longas horas. Pelo menos consigo ler meu livro, ja que, por alguma razao qualquer, nao enjoo nos onibus daqui. Nao consigo me concentrar porque a velhinha nao para de falar. Ja sei o nome de todos os vizinhos e das amigas dela. Ah, e do filho tambem. Tambem sei que ele nao gosta de pepino na salada.
Chego em Londres, aquela correria. Passo por todos os pontos cardeais da cidade em menos de oito horas. Pego um onibus, desco na frente de uma mercearia portuguesa para comprar goiabada. Compro um Sonho de Valsa tambem, porque nao sou de ferro. Como ali mesmo - de pe ao lado do balcao -, enquanto o bando de brasileiros que esta comendo coxinha na mesa ao lado nao para de falar mal da vida que levam aqui. Meu bombom esta vencido, sem gosto, um lixo. Tenho que anotar no Moleskine: "compre Sonho de Valsa so se nao for a granel".
Pego outro onibus no sentido contrario do anterior e desco em Oxford Street - a Oscar Freire londrina - para encontrar uma amiga que vai almocar comigo. Estou uma hora atrasada. Ja sao 4:00, ainda nao almocei e meu onibus sai do outro lado da cidade em uma hora e meia. Entramos correndo no restaurante, conversamos correndo, almocamos correndo, tomamos cafe correndo, saimos correndo e aqui estou eu - como em todas as vezes em que faco essa estupidez de vir a Londres por algumas horas -, ridicula, correndo em Oxford Street carregando duas sacolas (c-l-a-r-o que nao comprei so goiabada!) azuis que mais parecem sacos de lixo. Minha amiga ficou pra tras, pelo menos se livrou do papelao. Eu tenho que rir de mim mesma. Antes dela, outros dois fizeram isso. Todos sairam, literalmente, correndo junto comigo pra poder se despedir e garantir que eu nao perdesse o transporte de volta pra casa!
Sas e salvos, mal chegamos (eu, a goiabada e everyhing else) na rodoviaria e o onibus 412 e anunciado no alto-falante. Entro - ainda ofegante - e tenho uma sensacao de deja vu. Vejo muitas velhinhas e velhinhos sentados, espalhados pelo interior do onibus. Todos abracados na mala, nos sanduiches e nos livros, bem confortaveis. Sempre.
Beijao!
Juliana.
Penso em ficar na cama e cancelar todos os compromissos que marquei mas, como sei que sempre sou assim pela manha, ignoro a mim mesma e dou sequencia ao ritual matinal. Nem preciso dizer que estou num mau humor de cobra pisada. Meio fotofobica, meio dormindo acordada - mas ao mesmo tempo com um olho no relogio para ter certeza de que nao vou perder o onibus -, sento na cama. Me localizo no tempo e no espaco, visto meu chinelinho e solto um grunhido, efeito da aula de body pump da quarta-feira anterior em cada musculo do meu corpo. Sera o Benedito? Ja tenho duas coisas pra anotar no meu Moleskine. E olha que ainda estou no segundo paragrafo! Uma: nao compre a passagem das 7:30. Duas: nao faca aula de body pump e va correr depois.
A caminho do banheiro, torco pra nao encontrar alguem. Nao tem coisa pior pra quem nao gosta de conversar de manha do que quem levanta bem humorado. Eu detesto dar "Bom dia!" e so pego no tranco depois de copo de cafe preto la pelas 9:00. Bem, preces atendidas. Eu devo ser a unica pessoa acordada no quarteirao inteiro. Wheeeee!
Tomo meu copo de leite com Ovaltine (momento cultural: quando o Ovomaltine, produto desenvolvido na Suica, foi exportado para a Inglaterra em 1909, houve um "probleminha" no processo de registro da marca e o nome acabou ficando assim!), coloco uma barra de cereais na bolsa e saio.
Sou uma as primeiras a chegar na rodoviaria. Um porque ela fica bem pertinho daqui de casa. Outra porque essa coisa de ingles ser pontual e mentira deslavada. A sala de espera esta sempre trancada e o cenario e sempre o mesmo: eu do lado de fora - quase sempre azeda e congelando - e uma dezena de cadeiras plasticas verdes vazias, repousando no quentinho, parecendo arquibancada de jogo da segunda divisao do Brasileirao. Geez, sala de espera pra quem esperar o que?
Fico me ensaiando pra ir ate a esquina comprar um cafe com leite take-away, mas nao vou. Eu nunca sou a primeira a entrar no onibus nem mesmo quando chego antes de todos os outros passageiros, imaginem se resolver atravessar a rua e voltar depois. Capaz de ir sentada na frente do banheiro ou ao lado do motorista. Ou na frente de uma velhinha. Isso sim e de matar!
Deusquemeperdoe, mas todas as experiencias que tive ate hoje com velhinhas, velhinhos e afins foram pessimas. Tirando a de um espanhol - que ficou reclamando a viagem inteira que o meu banco reclinado estava apertando o joelho dele -, as velhinhas tem roubado a cena em todas as minhas viagens de ida e volta a Londres. Elas tem os direitos delas, eu sei, mas viajar com a bagagem no colo e demais.
Desta vez e um casal. Tamanho o trauma, eu olho varias vezes antes de reclinar meu banco, pra nao acontecer de amassar a pera, o suco, o jornal, o que for. Abaixo devagar, camera lenta mesmo. Bastou eu errar na mao e o encosto rocar no joelho da dita cuja, soa o alarme: "Ela, ela, foi ela!". Ninguem sossega enquanto eu nao apago o fogo, digo, enquanto nao levanto o banco para a posicao mais ereta possivel. Eu, parecendo que estou numa aula de ioga. Eles, abracados na mala, nos sanduiches e nos livros, bem confortaveis. Sempre.
E la se vao duas longas horas. Pelo menos consigo ler meu livro, ja que, por alguma razao qualquer, nao enjoo nos onibus daqui. Nao consigo me concentrar porque a velhinha nao para de falar. Ja sei o nome de todos os vizinhos e das amigas dela. Ah, e do filho tambem. Tambem sei que ele nao gosta de pepino na salada.
Chego em Londres, aquela correria. Passo por todos os pontos cardeais da cidade em menos de oito horas. Pego um onibus, desco na frente de uma mercearia portuguesa para comprar goiabada. Compro um Sonho de Valsa tambem, porque nao sou de ferro. Como ali mesmo - de pe ao lado do balcao -, enquanto o bando de brasileiros que esta comendo coxinha na mesa ao lado nao para de falar mal da vida que levam aqui. Meu bombom esta vencido, sem gosto, um lixo. Tenho que anotar no Moleskine: "compre Sonho de Valsa so se nao for a granel".
Pego outro onibus no sentido contrario do anterior e desco em Oxford Street - a Oscar Freire londrina - para encontrar uma amiga que vai almocar comigo. Estou uma hora atrasada. Ja sao 4:00, ainda nao almocei e meu onibus sai do outro lado da cidade em uma hora e meia. Entramos correndo no restaurante, conversamos correndo, almocamos correndo, tomamos cafe correndo, saimos correndo e aqui estou eu - como em todas as vezes em que faco essa estupidez de vir a Londres por algumas horas -, ridicula, correndo em Oxford Street carregando duas sacolas (c-l-a-r-o que nao comprei so goiabada!) azuis que mais parecem sacos de lixo. Minha amiga ficou pra tras, pelo menos se livrou do papelao. Eu tenho que rir de mim mesma. Antes dela, outros dois fizeram isso. Todos sairam, literalmente, correndo junto comigo pra poder se despedir e garantir que eu nao perdesse o transporte de volta pra casa!
Sas e salvos, mal chegamos (eu, a goiabada e everyhing else) na rodoviaria e o onibus 412 e anunciado no alto-falante. Entro - ainda ofegante - e tenho uma sensacao de deja vu. Vejo muitas velhinhas e velhinhos sentados, espalhados pelo interior do onibus. Todos abracados na mala, nos sanduiches e nos livros, bem confortaveis. Sempre.
Beijao!
Juliana.
26 janeiro 2007
Adeus, Casalina!
[Armario desorganizado da Casalina]
Aqui na Inglaterra e assim. Todas as casas sao numeradas e algumas sao nomeadas. Essa coisa de se dar nomes as casas comecou ha muito tempo - quando os ricos comecaram a querer diferenciar suas propriedades das dos outros - e continuou com o passar dos anos. Hoje em dia, ate o proletariado tem casas com nomes e numeros. A coisa toda ja nao e mais um privilegio so da burguesia inglesa. Faz tempo.
Parece brincadeira, mas nao e. Como ingles adora uma competicaozinha e parece ter diponibilidade pra todas essas bobagens, como nomear o jardim mais bonito, o cidadao mais patriota, a cenoura mais comprida cultivada em estufa (eu vi a tal cenoura numa feira agropecuaria no ano passado!), o diabo a quatro, claro que existe um ranking com os cinquenta nomes de casas mais populares por aqui. Liderando, esta o The Cottage ou A Casa de Campo, meio que querendo traduzir o que nao se traduz. Por ultimo, Oaklands. A casa onde eu morava - a das costeletas! - se chama Casalina. Pelo que sei, e o nome de uma vilazinha em algum lugar da Italia.
Como tudo por aqui, segue um padrao. Os nomes das casas sao inspirados em lugares, historia local, literatura e lendas. Fica ate divertido escrever o endereco do destinatario de correspondencias aqui no Reino Unido. Para Fulano de Tal, Celeiro da Andorinha (ou Os Salgueiros ou Vista do Prado ou Casa do Moinho ou O Ninho), Rua Tal, etc.
Casalina tinha numero tambem: dezesseis. Nunca usei o nome, mas tive oportunidades e achei melhor nao arriscar. Sempre preferi o modelo convencional - com numeros - adotado em 1765. Ja e dificil encontrar a tal casa procurando pelo numero, porque o quatorze fica do lado esquerdo da rua, fugindo a regra de que os numeros pares devem ficar do lado direito de quem esta de costas para o centro da cidade e, naturalmente, ao lado do dezesseis. Imaginem so o empenho do carteiro em encontrar a Casalina, que fica “logo ali”, ao lado do Pulo dos Esquilos.
Falar sobre rankings me fez lembrar um negocio curioso. Por aqui as competicoes tem os vencedores, os segundos colocados, os trabalhos - ou o que quer que seja - que valem a pena ser vistos e os que foram muito comentados. Perdedores voce nao encontra em lugar algum. Na semana passada estive em Bristol, visitando uma exposicao de fotografias sobre Vida Selvagem no Museu e Galeria de Arte da cidade, e nao consegui achar alguma que nao estivesse classificada numa daquelas categorias. Meio patetico, ate.
No mais, morar na nova casa tem sido bom. Esta nao tem nome, por ser uma townhouse. Neste caso, se nomeia o conjunto todo, como se, em vez de colocar o numero do condomínio, se colocasse o nome dele. Nada como O Pomar, mas ainda assim esquisito.
Faz cinco meses que deixei a Casalina, nunca mais voltei la e nem quero. Estou muito bem, obrigada, aqui onde estou. Minha casa e novinha em folha, bem iluminada, bem ventilada, bem localizada. Minha geladeira e limpinha, meu fogao tambem. Os vizinhos sao legais. O cinema e logo ali. E ninguem faz costeletas de porco pro jantar. Daqui eu nao saio, daqui ninguem me tira :)
Um beijao. Adorei estar de volta!
Juliana.
Juliana.
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