E a segunda vez que mudo de pais em menos de tres anos. Mesmo tendo aprendido muitas licoes, ainda estou longe de tirar de letra. Continuo repetindo muitos dos erros que cometi quando me mudei do Brasil para a Inglaterra, como, por exemplo, comprar uma coisa pensando que e outra, pegar onibus errado ou jogar lixo organico na lata destinada a reciclaveis. Acontece.
A possibilidade de vir de mala e cuia para a Noruega veio de repente. A mudanca viria, era inevitavel. So que imaginei que seria, no maximo, de volta pra casa. A proposta da mudanca para Oslo foi tentadora em todos os sentidos: a cultura e o idioma diferentes e o desafio de morar na Escandinavia – mas continuar na Europa – me ganharam. Apesar de a Inglaterra ser um pais desenvolvido, nao se compara aos padroes escandinavos: a Noruega tem a populacao 99% alfabetizada, civilizadissima, irritantemente organizada e um dos menores indices de corrupcao do mundo, o que justifica o pais ser um dos melhores lugares para se morar, segundo o Human Development Index das Nacoes Unidas.
Os noruegueses sao super patriotas. Tambem, pudera. O pais declarou sua independencia apenas em 1905. Durante as guerras Napoleonicas, a Dinamarca, que controlava a Noruega, era aliada de Napoleao. Do outro lado estavam Suecia, Gra-Bretanha e Russia. Depois de ter sido expulso da coalisao a qual pertencia, o frances Jean-Baptiste Bernadott, ex-marechal de Napoleao, foi “adotado” pela Suecia. Em 1814, ele incluiu a Noruega nas negociacoes de paz, o que fez com que o pais passasse a pertencer a Suecia, em vez da Dinamarca. Os noruegueses se revoltaram, declararam independencia, redigiram sua propria constituicao e elegeram seu rei. A liberdade durou apenas tres meses. A Suecia invadiu a Noruega, que perdeu a guerra e voltou a pertencer ao pais vizinho. 91 anos depois, a uniao foi pacificamente dissolvida e a pequena e pobre Noruega se tornou independente. No dia 17 de maio se comemora o Dia da Constituicao (Grunnlovsdag), um dos feriados mais importantes – se nao o mais – do pais.
O pais dos vikings, geleiras e leoes-marinhos tem mesmo que comemorar. Depois de ter sido novamente destruido (desta vez durante a Segunda Guerra), ser cidadao de um pais cujo PIB per capita figura entre os primeiros do mundo e mesmo coisa pra se orgulhar. Claro que a descoberta de petroleo em 1971 deu uma maozinha. Mas isso e historia pra outro texto neste mesmo Blog. :)
O meu noruegues ainda e nulo. Eu tento fixar algumas expressoes bem basicas como, por exemplo, “Jeg snakker ikke norsk (Eu nao falo noruegues)” , mas meu cerebro se recusa e sempre entro em panico quando alguem vem falar comigo. Ah sim, eles vem. E de monte. Pedir informacao, entao, nem se fala. Nao sei o que leva esse povo a pensar que, num pais onde 70% da populacao tem olhos azuis, a brasileira com cara de espanhola pode ajudar. Felizmente (quase) todo mundo e bilingue eo ingles faz parte da vida deles. Se nao fosse assim, eu estaria vivendo de pao (brød) e queijo de cabra (geitost), que sao as unicas palavras que sei falar.
Como todo tipo gastro-curioso, ja fiz varias visitas ao supermercado. Tento fazer minha lista de compras em noruegues, o que facilita um pouco. Como era de se esperar, aqui se acha peixes fresquissimos (eles tem nove tipos diferentes de bacalhau!), paes de todos os tipos e muito queijo. A surpresa fica por conta do prato nacional: pizza! A populacao tambem consome muitos salgadinhos (como batatinhas fritas, por exemplo) e o pais e um dos lideres no ranking europeu no consumo de refrigerantes e doces. Bem. Nem tudo e perfeito.
No mais, ainda estou doidona com a conversao da moeda. A Inglaterra e um pais caro, mas Oslo e a cidade mais cara do mundo e os impostos sao altissimos por aqui. Uma taca de vinho numa pizzaria de um bairro nobre da cidade chega a custar o mesmo preco que uma garrafa de vinho no Brasil. E vamos parar por aqui. Se eu contar o preco da refeicao que acompanhou o vinho, todos desistem de me visitar.
Beijos grandes.
Juliana.
06 maio 2008
21 fevereiro 2007
Que abacaxi!
Acabei de perceber que o abacaxi que comprei tem uma etiqueta que diz: "Preparation guidelines: Remove crown and outer skin whit a sharp knife. Cut away core and chop the flesh into cubes or slice into rings.". Ja comprei manga que veio com instrucoes de uso. Kiwi tambem.
Eu me divirto! :)
Juliana.
Eu me divirto! :)
Juliana.
04 fevereiro 2007
Um dia que parece uma duzia
O despertador toca as 6 horas da manha no sabado. Praguejo. E praguejo de novo. E de novo. Eu nao funciono bem de manha, nao sei porque insisto em comprar a passagem das 7:30!
Penso em ficar na cama e cancelar todos os compromissos que marquei mas, como sei que sempre sou assim pela manha, ignoro a mim mesma e dou sequencia ao ritual matinal. Nem preciso dizer que estou num mau humor de cobra pisada. Meio fotofobica, meio dormindo acordada - mas ao mesmo tempo com um olho no relogio para ter certeza de que nao vou perder o onibus -, sento na cama. Me localizo no tempo e no espaco, visto meu chinelinho e solto um grunhido, efeito da aula de body pump da quarta-feira anterior em cada musculo do meu corpo. Sera o Benedito? Ja tenho duas coisas pra anotar no meu Moleskine. E olha que ainda estou no segundo paragrafo! Uma: nao compre a passagem das 7:30. Duas: nao faca aula de body pump e va correr depois.
A caminho do banheiro, torco pra nao encontrar alguem. Nao tem coisa pior pra quem nao gosta de conversar de manha do que quem levanta bem humorado. Eu detesto dar "Bom dia!" e so pego no tranco depois de copo de cafe preto la pelas 9:00. Bem, preces atendidas. Eu devo ser a unica pessoa acordada no quarteirao inteiro. Wheeeee!
Tomo meu copo de leite com Ovaltine (momento cultural: quando o Ovomaltine, produto desenvolvido na Suica, foi exportado para a Inglaterra em 1909, houve um "probleminha" no processo de registro da marca e o nome acabou ficando assim!), coloco uma barra de cereais na bolsa e saio.
Sou uma as primeiras a chegar na rodoviaria. Um porque ela fica bem pertinho daqui de casa. Outra porque essa coisa de ingles ser pontual e mentira deslavada. A sala de espera esta sempre trancada e o cenario e sempre o mesmo: eu do lado de fora - quase sempre azeda e congelando - e uma dezena de cadeiras plasticas verdes vazias, repousando no quentinho, parecendo arquibancada de jogo da segunda divisao do Brasileirao. Geez, sala de espera pra quem esperar o que?
Fico me ensaiando pra ir ate a esquina comprar um cafe com leite take-away, mas nao vou. Eu nunca sou a primeira a entrar no onibus nem mesmo quando chego antes de todos os outros passageiros, imaginem se resolver atravessar a rua e voltar depois. Capaz de ir sentada na frente do banheiro ou ao lado do motorista. Ou na frente de uma velhinha. Isso sim e de matar!
Deusquemeperdoe, mas todas as experiencias que tive ate hoje com velhinhas, velhinhos e afins foram pessimas. Tirando a de um espanhol - que ficou reclamando a viagem inteira que o meu banco reclinado estava apertando o joelho dele -, as velhinhas tem roubado a cena em todas as minhas viagens de ida e volta a Londres. Elas tem os direitos delas, eu sei, mas viajar com a bagagem no colo e demais.
Desta vez e um casal. Tamanho o trauma, eu olho varias vezes antes de reclinar meu banco, pra nao acontecer de amassar a pera, o suco, o jornal, o que for. Abaixo devagar, camera lenta mesmo. Bastou eu errar na mao e o encosto rocar no joelho da dita cuja, soa o alarme: "Ela, ela, foi ela!". Ninguem sossega enquanto eu nao apago o fogo, digo, enquanto nao levanto o banco para a posicao mais ereta possivel. Eu, parecendo que estou numa aula de ioga. Eles, abracados na mala, nos sanduiches e nos livros, bem confortaveis. Sempre.
E la se vao duas longas horas. Pelo menos consigo ler meu livro, ja que, por alguma razao qualquer, nao enjoo nos onibus daqui. Nao consigo me concentrar porque a velhinha nao para de falar. Ja sei o nome de todos os vizinhos e das amigas dela. Ah, e do filho tambem. Tambem sei que ele nao gosta de pepino na salada.
Chego em Londres, aquela correria. Passo por todos os pontos cardeais da cidade em menos de oito horas. Pego um onibus, desco na frente de uma mercearia portuguesa para comprar goiabada. Compro um Sonho de Valsa tambem, porque nao sou de ferro. Como ali mesmo - de pe ao lado do balcao -, enquanto o bando de brasileiros que esta comendo coxinha na mesa ao lado nao para de falar mal da vida que levam aqui. Meu bombom esta vencido, sem gosto, um lixo. Tenho que anotar no Moleskine: "compre Sonho de Valsa so se nao for a granel".
Pego outro onibus no sentido contrario do anterior e desco em Oxford Street - a Oscar Freire londrina - para encontrar uma amiga que vai almocar comigo. Estou uma hora atrasada. Ja sao 4:00, ainda nao almocei e meu onibus sai do outro lado da cidade em uma hora e meia. Entramos correndo no restaurante, conversamos correndo, almocamos correndo, tomamos cafe correndo, saimos correndo e aqui estou eu - como em todas as vezes em que faco essa estupidez de vir a Londres por algumas horas -, ridicula, correndo em Oxford Street carregando duas sacolas (c-l-a-r-o que nao comprei so goiabada!) azuis que mais parecem sacos de lixo. Minha amiga ficou pra tras, pelo menos se livrou do papelao. Eu tenho que rir de mim mesma. Antes dela, outros dois fizeram isso. Todos sairam, literalmente, correndo junto comigo pra poder se despedir e garantir que eu nao perdesse o transporte de volta pra casa!
Sas e salvos, mal chegamos (eu, a goiabada e everyhing else) na rodoviaria e o onibus 412 e anunciado no alto-falante. Entro - ainda ofegante - e tenho uma sensacao de deja vu. Vejo muitas velhinhas e velhinhos sentados, espalhados pelo interior do onibus. Todos abracados na mala, nos sanduiches e nos livros, bem confortaveis. Sempre.
Beijao!
Juliana.
Penso em ficar na cama e cancelar todos os compromissos que marquei mas, como sei que sempre sou assim pela manha, ignoro a mim mesma e dou sequencia ao ritual matinal. Nem preciso dizer que estou num mau humor de cobra pisada. Meio fotofobica, meio dormindo acordada - mas ao mesmo tempo com um olho no relogio para ter certeza de que nao vou perder o onibus -, sento na cama. Me localizo no tempo e no espaco, visto meu chinelinho e solto um grunhido, efeito da aula de body pump da quarta-feira anterior em cada musculo do meu corpo. Sera o Benedito? Ja tenho duas coisas pra anotar no meu Moleskine. E olha que ainda estou no segundo paragrafo! Uma: nao compre a passagem das 7:30. Duas: nao faca aula de body pump e va correr depois.
A caminho do banheiro, torco pra nao encontrar alguem. Nao tem coisa pior pra quem nao gosta de conversar de manha do que quem levanta bem humorado. Eu detesto dar "Bom dia!" e so pego no tranco depois de copo de cafe preto la pelas 9:00. Bem, preces atendidas. Eu devo ser a unica pessoa acordada no quarteirao inteiro. Wheeeee!
Tomo meu copo de leite com Ovaltine (momento cultural: quando o Ovomaltine, produto desenvolvido na Suica, foi exportado para a Inglaterra em 1909, houve um "probleminha" no processo de registro da marca e o nome acabou ficando assim!), coloco uma barra de cereais na bolsa e saio.
Sou uma as primeiras a chegar na rodoviaria. Um porque ela fica bem pertinho daqui de casa. Outra porque essa coisa de ingles ser pontual e mentira deslavada. A sala de espera esta sempre trancada e o cenario e sempre o mesmo: eu do lado de fora - quase sempre azeda e congelando - e uma dezena de cadeiras plasticas verdes vazias, repousando no quentinho, parecendo arquibancada de jogo da segunda divisao do Brasileirao. Geez, sala de espera pra quem esperar o que?
Fico me ensaiando pra ir ate a esquina comprar um cafe com leite take-away, mas nao vou. Eu nunca sou a primeira a entrar no onibus nem mesmo quando chego antes de todos os outros passageiros, imaginem se resolver atravessar a rua e voltar depois. Capaz de ir sentada na frente do banheiro ou ao lado do motorista. Ou na frente de uma velhinha. Isso sim e de matar!
Deusquemeperdoe, mas todas as experiencias que tive ate hoje com velhinhas, velhinhos e afins foram pessimas. Tirando a de um espanhol - que ficou reclamando a viagem inteira que o meu banco reclinado estava apertando o joelho dele -, as velhinhas tem roubado a cena em todas as minhas viagens de ida e volta a Londres. Elas tem os direitos delas, eu sei, mas viajar com a bagagem no colo e demais.
Desta vez e um casal. Tamanho o trauma, eu olho varias vezes antes de reclinar meu banco, pra nao acontecer de amassar a pera, o suco, o jornal, o que for. Abaixo devagar, camera lenta mesmo. Bastou eu errar na mao e o encosto rocar no joelho da dita cuja, soa o alarme: "Ela, ela, foi ela!". Ninguem sossega enquanto eu nao apago o fogo, digo, enquanto nao levanto o banco para a posicao mais ereta possivel. Eu, parecendo que estou numa aula de ioga. Eles, abracados na mala, nos sanduiches e nos livros, bem confortaveis. Sempre.
E la se vao duas longas horas. Pelo menos consigo ler meu livro, ja que, por alguma razao qualquer, nao enjoo nos onibus daqui. Nao consigo me concentrar porque a velhinha nao para de falar. Ja sei o nome de todos os vizinhos e das amigas dela. Ah, e do filho tambem. Tambem sei que ele nao gosta de pepino na salada.
Chego em Londres, aquela correria. Passo por todos os pontos cardeais da cidade em menos de oito horas. Pego um onibus, desco na frente de uma mercearia portuguesa para comprar goiabada. Compro um Sonho de Valsa tambem, porque nao sou de ferro. Como ali mesmo - de pe ao lado do balcao -, enquanto o bando de brasileiros que esta comendo coxinha na mesa ao lado nao para de falar mal da vida que levam aqui. Meu bombom esta vencido, sem gosto, um lixo. Tenho que anotar no Moleskine: "compre Sonho de Valsa so se nao for a granel".
Pego outro onibus no sentido contrario do anterior e desco em Oxford Street - a Oscar Freire londrina - para encontrar uma amiga que vai almocar comigo. Estou uma hora atrasada. Ja sao 4:00, ainda nao almocei e meu onibus sai do outro lado da cidade em uma hora e meia. Entramos correndo no restaurante, conversamos correndo, almocamos correndo, tomamos cafe correndo, saimos correndo e aqui estou eu - como em todas as vezes em que faco essa estupidez de vir a Londres por algumas horas -, ridicula, correndo em Oxford Street carregando duas sacolas (c-l-a-r-o que nao comprei so goiabada!) azuis que mais parecem sacos de lixo. Minha amiga ficou pra tras, pelo menos se livrou do papelao. Eu tenho que rir de mim mesma. Antes dela, outros dois fizeram isso. Todos sairam, literalmente, correndo junto comigo pra poder se despedir e garantir que eu nao perdesse o transporte de volta pra casa!
Sas e salvos, mal chegamos (eu, a goiabada e everyhing else) na rodoviaria e o onibus 412 e anunciado no alto-falante. Entro - ainda ofegante - e tenho uma sensacao de deja vu. Vejo muitas velhinhas e velhinhos sentados, espalhados pelo interior do onibus. Todos abracados na mala, nos sanduiches e nos livros, bem confortaveis. Sempre.
Beijao!
Juliana.
Assinar:
Postagens (Atom)