Desde que me mudei para a Europa, há cinco anos e meio, sou freqüentemente lembrada, sempre com muito desgosto, de que venho de um país em desenvolvimento, e que meu sangue não é tão azul como os felizardos que nasceram em países desenvolvidos. O tipo de abordagem depende do interlocutor, obviamente, mas a mensagem é quase sempre a mesma: a de que sou proveniente de um lugar nada sério, como Charles de Gaulle descreveu uma vez.
Tudo começou em 2005, quando emigrei para a Inglaterra. Ali mesmo, na imigração, tive que me submeter a uma radiografia dos pulmões, para provar que não tinha tuberculose, e daí sim poder entrar no país e ficar. O curioso é que, em Portugal, membro da União Européia, a taxa incidência da doença é tão grande quanto no Brasil, mas nenhum português precisa fazer o mesmo teste. Já a Inglaterra, onde uma nova vacina está sendo testada, apresentou um aumento de 25% nos casos de tuberculose nos últimos dez anos. A magnitude da doença é mundial, mas não adianta: alguém tem que pagar o pato. E que sejamos nós, os "pobrezinhos" do Terceiro Mundo.
Os campeões de encheção de saco são as companhias aéreas. Quando fui à Itália, em 2009, quase não consegui embarcar de volta para a Noruega porque a funcionária da SAS achou que eu deveria voltar ao Brasil, e não continuar na Europa. Na última vez que fui à Inglaterra, em 2010, quase não consegui embarcar, porque a mocinha da British Airways não se convenceu ao ver minha passagem de volta para a Noruega a partir da França, voando SAS. Cada vez que volto da França e despacho minha bagagem, as atendentes da SAS me questionam sobre o que venho fazer na Noruega e se tenho visto para entrar aqui, mesmo não sendo obrigada a ter um se o meu objetivo for apenas visitar.
Nos guichês de imigração, quase tudo igual. Mesmo tendo vivido dois anos e meio na Inglaterra, só entro no país se tiver uma carta-convite assinada por alguém que mora legalmente lá. Na França, uma amiga minha foi ridicularizada quando viajava com o namorado europeu. Quando viajei aos Estados Unidos a trabalho no ano passado, mesmo já tendo entrado e saído do país como turista em 1995, tendo comigo meu passaporte brasileiro com um visto americano e dois vistos europeus válidos, mais uma carta do meu empregador explicando o motivo da minha viagem, detalhando o itinerário e informando meu salário anual, fiquei mais de uma hora presa numa sala com mais um bando de viajantes. Só fui liberada depois de ser entrevistada por um policial, que pareceu me fazer um favor ao me deixar entrar no país.
Aqui na Noruega, quase tudo se repete. Tive que fazer a mesma radiografia dos pulmões quando cheguei em 2008. Ainda não tive nenhum incidente com a imigração, até porque moro e trabalho aqui e tenho visto de residência no país. Mas foi ao me cadastrar como doadora de sangue no país que veio a maior surpresa: por ser brasileira, não sou qualificada para doar sangue. E tampouco qualificada para o "SUS norueguês" me ajudar, se alguma coisa acontecer comigo enquanto estiver viajando pela Europa, como acontece para todo e qualquer imigrante de outro país da comunidade, que trabalha e paga impostos na Noruega tanto quanto eu.
A ignorância e arrogância também atinge pessoas que convivem comigo, o que me deixa mais atônita. Recentemente escutei da mesma pessoa, mais de uma vez, que venho de um país pobre e subdesenvolvido, onde pessoas morrem e são roubadas nas ruas. Ora. Que o Brasil tem problemas, todo mundo sabe. E qual país não tem os seus?
Hoje em dia, o Brasil já é a maior economia da América Latina e a décima maior do mundo. Em 2050, estará provavelmente em quarto lugar, ultrapassando países como a Alemanha, Japão e o Reino Unido, segundo um estudo da Goldman Sachs. Claramente, nós viramos a página, e somos hoje uma nação com o peso, ambição e fundamentos econômicos para se tornar uma potência mundial. Mas o país tem enormes desafios que deve superar antes de poder viver plenamente até seu potencial.
O setor público está inchado e cheio de corrupção. A criminalidade é galopante. A infra-estrutura necessita de muitos reparos e expansão. O ambiente empresarial é restrito, com uma legislação trabalhista da época do "êpa". O Brasil também tende a ficar na retaguarda, o que faz com que tenha uma imensa dificuldade em quantificar o enorme trabalho que precisa ser feito para que o país tome jeito.
Por outro lado, não podemos negar que tem muita coisa boa acontecendo no momento, e que o Brasil nunca teve tantas oportunidade quanto tem tido e terá nos próximos anos. Vai de nós saber aproveitar. E também, de saber se mostrar.
Beijocas!
Juliana-a-mom2be-orgulhosa-de-mais-um(a)-brasileirinho(a).
12 abril 2011
08 abril 2011
O mundo dos trabalhos manuais
Para orgulho da minha avó, resolvi desenterrar do passado um "novo-velho" hobby: me rendi, outra vez, aos encantos dos trabalhos manuais e decidi tentar voltar a tricotar.
Tudo começou quando descobri que nem minha mãe, nem minha sogra, são tricoteiras de plantão. As duas são habilidosas, mas cada qual tem suas preferências, que infelizmente não incluem tricô. Foi quando entrei em pânico, já que, aparentemente, parecia ser a única mãe do mundo cujo bebê não teria nem um único casaquinho! A boa notícia veio mesmo quando, depois de uma semana de caça à tricoteira, recebemos um e-mail da tia-avó do bebê, cunhada da minha sogra, se oferecendo pra nos salvar. Ufa! Isso foi o mais perto que eu e Matthieu conseguimos chegar de alguém que domina as agulhas, infelizmente.
Eu nunca tive aulas de tricô na escola. O pouco que aprendi foi com a minha avó, que também não é lá uma Brastemp na arte de criar alguma coisa a partir de um novelo de lã. Durante a minha infância, tive uma fase onde tentei me achar entre diversos trabalhos manuais, mas nunca gostei tanto de nenhuma das opções a ponto de me engajar num projeto desafiador. Achava crochê sacal e ponto-cruz meio sem sentido. Tenho quase certeza de que eu gostava de bordar telas, mas, sinceramente, não lembro nada sobre tricotar. Na verdade, eu acho que não devia gostar muito porque nunca aprendi direito, e nunca aprendi direito porque não gostava muito. Pelo que me lembro, nunca fiz nada mais do que roupas de lã para uma das minha bonecas. E só.
Eu tenho várias amigas que costuram, tricotam, crochetam, fazem ponto-cruz, enfim, quando você entra mais a fundo no assunto, descobre que o tal negócio na verdade nunca saiu de moda. O mais curioso disso tudo é a maioria vem das amigas tricoteiras vem das ciências exatas, como eu. Uma é engenharia disso, a outra engenheira daquilo. Acho que no fundo no fundo no fundo todas colocam o lado meio Ana Machadão pra escanteio quando o assunto é arts and crafts. Sei lá.
Como elas, sempre quis fazer alguma coisa, mas nunca achei tempo, tampouco disposição. Até que, dias atrás, lendo um daqueles intermináveis boletins que recebo de sites relacionados à gravidez, cliquei num link que me levou prum outro site, onde fiquei e de onde não saí mais. NOTHS, como é carinhosamente chamado por aqueles que têm preguiça de digitar o nome inteiro do site, parece ser o equivalente do Etsy, só que no velho mundo. E também a perdição da mulherada, como é de se esperar de um site desses. Os dois endereços concentram artesãos que vendem suas criações on-line, mais ou menos como se a Feirinha do Largo da Ordem tivesse uma versão eletrônica. Imaginem só aquela bala de côco deliciosa da feira, a um clique de você. Mais ou menos assim! :)
Já absorvida pelo site, depois de vasculhar dezenas de páginas, acabei caindo nuns kits de tricô para iniciantes. Coisa simples: você encomenda um kit per internet, e recebe um pacote de supermercado com tudo dentro. Desde as instruções de como tricotar, até a quantidade certinha de lã que você precisa pra fazer uma ou outra coisa, mais as agulhas, etc. Não tive como não lembrar do nosso drama recente na busca pela tricoteira, e do tempo livre que vou ter na França, quando da minha mudança em julho.
Bem. Tudo isso pra dizer que acabei comprando o tal pacote. Teoricamente, tenho que conseguir tricotar e montar um gato preto de tricô em algumas semanas. O que vai sair dali já não posso garantir. Prometo que, terminada a aventura, tiro uma foto e publico aqui!
Beijos!
Juliana.
Tudo começou quando descobri que nem minha mãe, nem minha sogra, são tricoteiras de plantão. As duas são habilidosas, mas cada qual tem suas preferências, que infelizmente não incluem tricô. Foi quando entrei em pânico, já que, aparentemente, parecia ser a única mãe do mundo cujo bebê não teria nem um único casaquinho! A boa notícia veio mesmo quando, depois de uma semana de caça à tricoteira, recebemos um e-mail da tia-avó do bebê, cunhada da minha sogra, se oferecendo pra nos salvar. Ufa! Isso foi o mais perto que eu e Matthieu conseguimos chegar de alguém que domina as agulhas, infelizmente.
Eu nunca tive aulas de tricô na escola. O pouco que aprendi foi com a minha avó, que também não é lá uma Brastemp na arte de criar alguma coisa a partir de um novelo de lã. Durante a minha infância, tive uma fase onde tentei me achar entre diversos trabalhos manuais, mas nunca gostei tanto de nenhuma das opções a ponto de me engajar num projeto desafiador. Achava crochê sacal e ponto-cruz meio sem sentido. Tenho quase certeza de que eu gostava de bordar telas, mas, sinceramente, não lembro nada sobre tricotar. Na verdade, eu acho que não devia gostar muito porque nunca aprendi direito, e nunca aprendi direito porque não gostava muito. Pelo que me lembro, nunca fiz nada mais do que roupas de lã para uma das minha bonecas. E só.
Eu tenho várias amigas que costuram, tricotam, crochetam, fazem ponto-cruz, enfim, quando você entra mais a fundo no assunto, descobre que o tal negócio na verdade nunca saiu de moda. O mais curioso disso tudo é a maioria vem das amigas tricoteiras vem das ciências exatas, como eu. Uma é engenharia disso, a outra engenheira daquilo. Acho que no fundo no fundo no fundo todas colocam o lado meio Ana Machadão pra escanteio quando o assunto é arts and crafts. Sei lá.
Como elas, sempre quis fazer alguma coisa, mas nunca achei tempo, tampouco disposição. Até que, dias atrás, lendo um daqueles intermináveis boletins que recebo de sites relacionados à gravidez, cliquei num link que me levou prum outro site, onde fiquei e de onde não saí mais. NOTHS, como é carinhosamente chamado por aqueles que têm preguiça de digitar o nome inteiro do site, parece ser o equivalente do Etsy, só que no velho mundo. E também a perdição da mulherada, como é de se esperar de um site desses. Os dois endereços concentram artesãos que vendem suas criações on-line, mais ou menos como se a Feirinha do Largo da Ordem tivesse uma versão eletrônica. Imaginem só aquela bala de côco deliciosa da feira, a um clique de você. Mais ou menos assim! :)
Já absorvida pelo site, depois de vasculhar dezenas de páginas, acabei caindo nuns kits de tricô para iniciantes. Coisa simples: você encomenda um kit per internet, e recebe um pacote de supermercado com tudo dentro. Desde as instruções de como tricotar, até a quantidade certinha de lã que você precisa pra fazer uma ou outra coisa, mais as agulhas, etc. Não tive como não lembrar do nosso drama recente na busca pela tricoteira, e do tempo livre que vou ter na França, quando da minha mudança em julho.
Bem. Tudo isso pra dizer que acabei comprando o tal pacote. Teoricamente, tenho que conseguir tricotar e montar um gato preto de tricô em algumas semanas. O que vai sair dali já não posso garantir. Prometo que, terminada a aventura, tiro uma foto e publico aqui!
Beijos!
Juliana.
02 abril 2011
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