27 novembro 2005

Semi-adaptada

Me atrasei, eu sei. Juro que tentei manter a atualizacao do Blog como parte da minha rotina, mas foi impossivel. Desde que passei o final de semana na praia (para me despedir do mar pessoalmente, eu nao poderia ter deixado para segundo plano!) minha vida tem estado enlouquecida. Meu visto de permanencia saiu naquela mesma semana, meu apartamento e carro foram vendidos, nunca frequentei tantos consultorios medicos e saloes de beleza num periodo tao curto. A mudanca de pais realmente me tomou muito tempo. Tanto que sai sem me despedir de muita gente.

Deixei o Brasil tranquila. Todas as minhas pendencias - com excecao de algumas bem burocraticas que envolvem o governo brasileiro - foram resolvidas. Tudo bem, nada que eu nao possa esclarecer daqui, com mais calma. O mais importante foi que eu consegui me despedir todas as pessoas que amo antes de vir embora: em almocos informais, jantares super especiais, barzinhos, cafes, em uma feijoada m-a-r-v-i-l-h-o-s-a num sabado na hora do almoco, em uma roda de chimarrao em pleno aeroporto de Guarulhos. Quer coisa mais brasileira do que isso? Poder abracar com carinho e dizer que vai sentir saudades? Amei!

A viagem foi, literalmente, turbulenta. A tripulacao parecia estar esgotada: todos muito mau-humorados, tudo parecia ser um sacrificio. Pra ajudar, meu vizinho de assento era fumante e tinha cheiro de cinzeiro. E ainda fiquei sentada perto da copa, onde a movimentacao e ininterrupta durante o voo. Ou seja: nao dormi nada.

Minha primeira semana aqui foi uma loucura. Passei a maior parte do tempo preenchendo formularios e me registrando em algum lugar: no escritorio de imigracao, no banco, na operadora de telefone movel, na biblioteca, no "medico de familia", na agencia de transito (sim, vou dirigir!), na escola de ingles, no seguro social, e por ai vai. Muito chato, mas absolutamente necessario. Fazer o que.

Tanto o trabalho quanto a acomodacao tem correspondido perfeitamente as expectativas, mas ainda prefiro me preservar e nao registrar nenhuma opiniao a respeito. Como tendemos a ser muito receptivos as novidades, a realidade pode ficar um pouco distorcida neste caso. Quem sabe na proxima entrada.

Para quem achou que eu ia comer mal, se enganou. Para minha sorte, minha anfitria adora cozinhar, e esta sempre as voltas com livros e revistas de culinaria. Meus jantares sao sempre muito variados e bem balanceados, minha nutricionista iria adorar. Ja no almoco comemos um lanche. Aqui mesmo, no escritorio. E so sair do predio, andar um pouco e escolher entre as centenas de ofertas: tamanha variedade ate me confunde, as vezes. Mesmo assim, a partir da semana que vem vou preparar meu proprio sanduiche: os que compramos prontos sao deliciosos, mas muito caloricos e caros. Chegam a custar ate cinco vezes mais! Pra voces terem uma ideia de como servicos sao caros por aqui.

Vai depender do comportamento da minha rotina, mas tudo indica que vou poder escrever com mais frequencia. Tenho tanta informacao pra colocar aqui e ao mesmo tempo nao tenho nenhuma, realmente uma sensacao muito esquisita. Sendo assim, para nao ficar perdida, comprei uma caderneta onde anoto tudo que vem a cabeca: detalhes das minhas idas ao supermercado, das minhas andancas pelo centro da cidade, dos habitos de dentro de casa. Vamos ver se, com toda essa iniciativa, consigo preparar um material de qualidade para voces!

Beijo grande, fiquem bem!
Juliana.

03 novembro 2005

Alta fidelidade

Quem leu o livro Alta Fidelidade, escrito por Nick Hornby, ou viu o filme de mesmo nome, dirigido por Stephen Frears, sabe bem do que estou falando. Rob Gordon (vivido por John Cusack, que está realmente divertido no papel!), um trintão dono de uma loja de discos de vinil, escreve listas compulsivamente: ele faz o top five de tudo, até dos seus piores fins de relacionamento - hehe!

Não cheguei a esse ponto, mas quase: tenho tido sempre papel e caneta à mão, para anotar tudo que me vem à cabeça. Coisas para comprar, lugares pra ir, aniversários para lembrar. Tudo isso devidamente rabiscado em algum lugar. Mesmo que seja minha própria mão esquerda. Aquela coisa adolescente de não anotar nada e fazer um esforço supremo para lembrar depois não funciona mais. Acho que depois que completamos trinta anos e podemos ser chamadas de "balzaquianas" o nosso cérebro fica mais seletivo naturalmente: não só para filtrar quem merece fazer parte da nossa vida (que é o básico da maturidade, todas as revistas femininas menos conservadoras dizem isso!), mas para tudo que é banal e fútil também. Há quatro semanas estive em São Paulo e lembrei de algo inútil para fazer, coisa que achei que nem valeria a pena anotar porque seria fácil de "resgatar" depois. Obviamente não tinha a mínima idéia do que era passadas algumas horas. Hoje, muitas quartas-feiras depois, lembrei do que deveria ter feito: comprado Mentex. Bem, ainda dá tempo...

Pra ajudar, estou "meio" doente: tenho tossido horrores, e tudo que tenho feito pra melhorar parece não adiantar nada! Já foram dois vidros de xarope, uma caixa de pastilhas, muitos chás diferentes. Ainda não apelei pra reza braba, mas estou quase. Como meu otorrinolaringologista preferido é meu melhor amigo e tem acesso ao meu Blog, tenho que confessar (antes que ele deixe um comentário mal-criado aí embaixo!) que não fiz exatamente tudo o que me receitou: ficar em repouso tem sido impossível! Sério, bem que tenho tentado!

Minha passagem já foi marcada para daqui a onze dias, mas o Consulado - apesar de já ter descontado o cheque que paga a análise da minha papelada - ainda não se manifestou de nenhuma maneira, nem contra nem a favor da minha permanência no Reino Unido. Mesmo assim, minhas malas já estão abertas na sala de jantar. Sem nada dentro (de vez em quando um gato metido, apenas), ainda. Afinal, não terminei minhas listas!

Beijos, espero ter novidades na próxima entrada! Nem que seja pra dizer que, finalmente, comprei uma caixa de Mentex!
Juliana.

PS Se esse texto tivesse trilha sonora, seria "Bette Davis Eyes" de Donna Weiss e Jackie DeShannon.

24 outubro 2005

Não é tão fácil quanto parece!

Comecei mal. Como adoro escrever, achei que atualizar o Blog seria tarefa fácil. Definitivamente não é.

Teoricamente já é segunda-feira e aqui estou eu, meio sem paciência, sentada em frente ao PC, encarando a pilha de revistas que estão por ler. Não paro de pensar em como era possível eu trabalhar doze horas diariamente e ao mesmo tempo manter minha contabilidade em dia, lembrar de todos os aniversários, ler as revistas e jornais que estavam ao meu alcance, nadar três vezes por semana, cozinhar pelo menos aos domingos, cultivar os meu amigos queridos. Acho que desaprendi a fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Tenho tido a impressão de que não tenho mais tempo pra nada.

No começo da semana recebi a permissão de trabalho pelo correio. A partir dela descobri que a burocracia toda ainda não terminou: tenho que entrar em contato com o Consulado Britânico no Rio de Janeiro para solicitar o visto que me permitirá residir em território inglês durante os dois anos em que a permissão for válida, ou seja, em 2007 lá estarei eu correndo com toda a papelada outra vez. E respondendo - de novo - que nunca fui deportada, não tenho antecedentes criminais, não apoio atos de terrorismo, não faço parte de nenhuma organização terrorista e nunca matei ninguém. Será que alguém responde "Yes" nessas questões?

Amanhã meu dia começará cedo, mas por outro motivo: minha melhor amiga está no Brasil outra vez, depois de um ano sem aparecer por aqui. Está nas minhas prioridades organizar os papéis para enviar à Embaixada, mas também está o almoço que marquei com ela. Porque amigo, como escreveu Vinicius de Moraes, é um ser que a vida não explica. E nada melhor para a saúde que um amor correspondido, não é?

Love you!
Juliana.