25 janeiro 2006

Si fueris Romae, Romano vivito more, si fueris alibi, vivito sicut ibi

"Quando em Roma, faca como os romanos fazem". Foi o que St Ambrose disse para St Augustine no seculo IV, antes que o negocio todo caisse na boca do povo. E aqui estou eu, dezessete seculos depois, usando a versao original - do que agora e um proverbio bem popular - para nomear a entrada desta semana no meu Blog.

Os romanos ainda se fazem muito presentes por aqui: deixaram vestigios por todos os lugares da Inglaterra, coisa da epoca do Imperio Romano. As provas mais evidentes sao as roman roads, o que nao e uma surpresa: por razoes militares, comerciais e politicas, os romanos se especializaram na construcao de estradas. Elas foram essencias para o desenvolvimento do Imperio, ja que permitiam que os exercitos se deslocassem rapidamente de um ponto a outro. Alem disso, ajudaram a sustentar o mercantilismo romano por facilitarem o transporte terrestre. E foram elas - tambem - que originaram aquele outro proverbio, bem conhecido: "Todos os caminhos levam a Roma".

E levam mesmo. As estradas romanas foram desenhadas na direcao de Roma: o objetivo era impedir que as provincias se unissem e resistissem contra o Imperio. Todas foram muito importantes em manter sua estabilidade e expansao, e algumas sao usadas ate hoje, um milenio depois. Eu mesma ja passei por muitas delas. O que deu errado foi que, na Antiguidade, as mesmas estradas facilitaram a invasao dos barbaros, e, consequentemente, o recuo dos romanos.

Na verdade o objetivo nao e falar sobre o Imperio Romano, mas sim do quanto incorporei o meu lado britanico no domingo passado. Fiz como os britanicos fazem, nao como os romanos. Embora o dia ensolarado nao tivesse nada de ingles, assumi o meu lado elisabetano e fui a um pub bem popular com alguns amigos, assistir a um jogo de futebol. Nada menos que um classico: Manchester United e Liverpool. Quase um Atletiba!

Como ja estava la mesmo e tinha que entrar no clima, nao deixei de tomar cerveja. Melhor. Tomei shandygaff, ou shandy: um coquetel feito da mistura de cerveja (quase sempre inglesa) e uma bebida nao-alcoolica (aqui na Europa eles usam refrigerante de limao). As proporcoes dos dois ingredientes sao ajustadas de acordo com o gosto do fregues, normalmente meio-a-meio, embora o shandy industrializado seja tipicamente mais fraco (aproximadamente uma medida de cerveja para dez de refrigerante). Na Bavaria, a mesma bebida e chamada de russ.

Para minha decepcao, o
Hog's Head nao tem clima de pub. E super iluminado, bem moderninho, diferente de todos os outros em que ja estive, tanto na Inglaterra quanto na Escocia, e ate mesmo no Brasil. Nao posso evitar, e automatico: relaciono pub com dificuldade para ler o cardapio pela falta de iluminacao, com um cara sentado la no canto bebendo horrores e conversando com a garconete do balcao, com garcom grosso e mal-educado, com banheiro sujo, enfim, com todo o conceito do qual os britanicos se orgulham de ter construido ate hoje, inclusive com o de eles serem os maiores beberroes do mundo. Falando nisso, como se bebe por aqui! Meudeusdoceu! Neste pais (adoro esta expressao, aqui se usa muito) ninguem fica um dia sequer sem tomar pelo menos meio litro de cerveja. E olha que falo por experiencia propria: nem queiram saber o que encontro pela rua todo dia de manha, a caminho do trabalho...

De volta ao Hog's Head. Montes de ingleses e inglesas, uns de pe, outros sentados, mas todos, todos mesmo, bebendo e fumando enlouquecidamente. Na minha mesa, nenhum bebado e nenhum fumante. So gente de toda parte do mundo: eu, minha colega brasileira, dois eslovacos, um espanhol e um... Ingles, claro. Nao poderia faltar. Sobre o jogo? Manchester United marcou um gol no ultimo minuto do segundo tempo. Um dia depois de eu ter adotado o Liverpool como sendo meu time ingles. Fazer o que, ne? Acontece.

Sobre a experiencia, St Ambrose que me desculpe, mas tenho minhas limitacoes: gosto de futebol, de cerveja, do humor sutil, mas nao consigo - mesmo - ficar sem escovar os dentes depois do almoco. Nem comer bacon pela manha.

Ah, curiosidade: fiz um paralelo, foi inevitavel. Comparando minha mesa no boteco com a feira de sabado, fico ainda mais fa desse nosso mundo globalizado: figos e damascos turcos, bananas vietnamitas, tamaras iranianas, caquis israelenses, e, macas. Inglesas, claro. Nao poderia faltar.

Por aqui tudo na mesma: muito trabalho, muitas viagens, muitas Roman roads pelo caminho. Ja tem amanhecido mais cedo e anoitecido mais tarde, coisa que a minha sanidade mental agradece. Ainda temos frio, o que nao e novidade. Nao temos previsao de chuva. Isso sim, e novidade!

Um beijo, fiquem bem!
Juliana.

17 janeiro 2006

Patricinha? Eu?

De todas as minhas amigas queridas, muitas me acham patricinha. Outras me acham feminista. As que sobraram nao acham nada disso. E se eu perguntar vao me mandar catar coquinhos.

Comecei a pensar nisso depois que li a entrada mais recente no
Blog pessoal da Fernanda (Guimaraes Rosa, a mesma do Chucrute com Salsicha). O assunto tinha a ver com o ziper de uma calca dela, que fechava do lado errado. A questao era essa mesma: sera que o ziper estava costurado do lado errado? Ou sera que, por alguma razao que ninguem sabia qual era, ele estava costurado certo? So sei que la pelas tantas me vi checando os ziperes de todas as minha calcas de trabalho para ver se eu entendia do que ela estava falando. E descobri que pelo menos um deles fecha do lado esquerdo! Eu, hein!

Quem diria. Eu, euzinha, da calca jeans e camiseta branca, vestindo calca social todo dia. Mas nao e por gosto nao, e por pura obrigacao: me acho muito artificial naquilo tudo. Tenho muito mais criatividade para me arrumar num jeans (brasileiro, c-l-a-r-o!) do que numa calca de linho. E podem apostar que fico muito mais bem vestida. Calcas jeans sao muito versateis, sou fa mesmo. Combinam com sandalia, bota ou tenis. Com noite ou dia. Com festa. Com dia de ficar em casa. Com rock, pop ou musica classica. Com teatro ou jogo de futebol. E com meu santo-rimel-de-todo-dia! Definitivamente, tem tudo a ver comigo.

Nao faz muito tempo comecei a ler revistas de moda. Desde entao, tenho usado mais acessorios, salto alto, maquiagem, decote. Tambem me apaixonei por uma designer de bijuterias paulistana, por calcas com strecht, por sutias de um determinado modelo, por batas, por sunquinis. Mudei o corte e a cor do meu cabelo e o formato da sombrancelha. Nunca deixei de ir a manicure uma vez por semana. Nem de ter uma nocao do que esta na moda. Pra nao fazer feio, ne?

Tai. Por isso mesmo e tao dolorido ter que usar calca de alfaiataria todos os dias. As opcoes de variacao sao tao poucas, que quase posso chamar de uniforme. Mesmo assim, nao posso reclamar muito: sempre consigo dar um toque pessoal no final, ainda que muito discreto. Dia desses estava vestindo calca, camiseta e sapato pretos, casaquinho de veludo cor-de-rosa, e meia... Cinza de bolonas coloridas! Ah, agora sim! Esta sou eu! E querem saber? Sou patricinha mesmo!

Tambem tenho lido uma determinada revista super-feminista. Por coincidencia, uma das colunistas escreve um dos dos
Blogs que leio regularmente. Adoro a revista, sempre que alguem vem do Brasil traz pra mim. O conteudo e excelente: textos bem escritos, assuntos bem selecionados, enfim, material interessante e de boa qualidade. As materias variam entre politica, valores, personalidades, nao necessariamente nesta ordem. E as vezes tem uma tendenciazinha feminista sim, nao posso negar. A diferenca e que, quando os colunistas pegam pesado na historia de queimar sutias, nao acho eles tao legais assim.

Ser dona do meu nariz e adorar ser livre nao me impede de desejar ter, um dia, uma familia igual aquelas que vemos nos comerciais de margarina. O que muita gente confunde e exatamente isso: independencia com auto-suficiencia. Ser determinada nao significa aguentar qualquer tranco: sempre gostei de abraco, de cafune, de deitar no colo. E, como em todos os extremos, toda feminista e meio burra, ne?

Sendo assim, erra quem acha que pode me encontrar numa passeata mulheres-unidas-jamais-serao-vencidas qualquer dia desses. Alem do mais, nao vou sair por ai queimando os meu sutias a toa. Eles sao de um determinado modelo, e estao super na moda!

Beijo pra todos, pisem no mar por mim!
Juliana.

12 janeiro 2006

Mistletoe europeu

[European mistletoe attached to a poplar]

Pra variar, muita coisa pra contar: fiquei pensando se falava sobre o meu cardapio de Ano Novo, sobre a saudade que sinto do mar, sobre o quanto os ingleses bebem. Fora o assunto da cozinha da minha acomodacao que, embora ja tenha sido prometido, ficou para segundo plano. Ja contei que ando com uma caderneta na bolsa para anotar tudo que vou lembrando de escrever no Blog? Pois e. Ando. Para ter certeza de que nao vou esquecer de contar nada.

No dia em que cheguei aqui na Inglaterra um dos meus diretores foi me buscar em Londres. Viemos de carro, o que significa que durante a viagem recebi informacao suficiente para preencher toda a minha caderneta. Eles sao muito ligados em Historia por aqui: todo mundo sabe pelo menos um pouquinho, e contam tudo sempre com muitos detalhes e orgulho. Da gosto e ver. Da vergonha de ser brasileiro e nao saber nada sobre o assunto.

Neste mesmo dia, entre tantas paisagens diferentes e conexoes com a cultura local, me mostraram uma arvore (ja sem folhas por causa do outono) com um arbusto que tinha crescido no meio dela. Me explicaram o que era, mas nao entendi nada: eu ainda estava ligada no Brasil, nao tinha me conectado por aqui. Afinal, minhas malas ainda estavam feitas! So sei que falaram um tanto, concordei outro tanto, e depois de tantos "Bla-bla-blas" e "A-hams" o assunto ficou por isso mesmo. Nunca entendi o que aquelas folhas estavam fazendo la, embora tenha ficado intrigada.

Depois de ter entrado na rotina e comecado a circular pela cidade, reparei que muitas arvores tinham a mesma caracteristica do que aquela: nenhuma folha, e um arbusto super-desenvolvido no meio dos galhos, bem no alto. Ficava cada dia mais emputecida por nao ter prestado atencao no que tinham me falado. E por ter concordado com a explicacao o tempo todo, ao inves de ter dito que nao tinha entendido absolutamente nada. Irritante.

Muitos arbustos depois, quando o assunto ja estava quase esquecido, tive um reuniao na vespera da vespera de Natal na casa do meu outro chefe (em Marlow). Alem de ele ter um arbusto crescendo na arvore em frente a casa dele - o mesmo que me mostraram da outra vez, ou seja, o responsavel pela curiosidade que estava me matando - ele tinha um deles dentro de casa. A esposa dele tinha colhido umas folhinhas, amarrado com um lacinho, e la estava o chumacinho cheio de folhas bem verdinhas, pendurado a 30 centimentros da minha cabeca! Nem precisei perguntar nada, ja foram me explicando por conta propria mesmo.

Me enfiaram embaixo da plantinha - que estava pendurada no teto do hall de entrada - e me deram um beijinho. E eu fiquei la, com aquela cara de quem nao entendeu nada, esperando que me contassem (de novo!) o que era aquilo. Prometi pra mim mesma que nao ia sair de la sem uma boa explicacao.

Bem. O tal do tufo se chama mistletoe. E um nome comum para varios tipos de plantas parasitas de duas familias diferentes, e originalmente aplicado a uma especie nativa da Gra-Bretanha. Embora seja engracadinho, nao deixa de ser uma parasita: pode ate matar a arvore onde cresce, se a infestacao for grande. Os passarinhos sao os responsaveis pelo plantio: eles se alimentam das sementes e evacuam nos galhos. Elas ficam coladas la e se desenvolvem.

Hoje em dia, mistletoes sao usados na decoracao de Natal. O mesmo Viscum album (nome cientifico) que falei ai em cima. De acordo com um costume local, quando duas pessoas se encontram debaixo de um maco de mistletoe sao obrigadas a se beijar. A origem disso tudo esta relacionada com a estoria do deus Bladur, que foi assassinado com uma arma feita de mistletoe (ele morreu envenenado). Dizem que ele voltou a vida porque sua mae Frigg (deusa do amor) removeu o veneno com suas lagrimas. Quando Bladur acordou, ela beijou todo mundo que passou embaixo do arbusto, demonstrando felicidade e gratidao. E dai comecou o costume!

Bem, vou ficando por aqui. Ja e tarde e ainda estou conectada, mesmo estando morrendo de sono. Ainda assim, nao consigo resistir aos meus surtos de inspiracao: sao mais fortes do que eu. Seria capaz de ficar escrevendo por horas, tamanho o prazer que me da!

Beijo grande, estou com saudades!
Juliana.