*Este Post foi publicado originalmente no o.quindim.
Faz dias que tenho exaurido meu cerebro procurando a origem da minha paixao pela gastronomia, mas nao tenho tido sucesso: boas lembrancas me vem a memoria, mas nao tenho conseguido precisar o exato momento de quando a minha apatia deu lugar a todo esse encanto, que me faz cravar os olhos dentro da cozinha de um restaurante quando algum garcom descuidado esquece a porta aberta.
Ja e seculo 21 e uma das minhas avos ainda cozinha em fogao a lenha. Ela e neta de italianos e, embora nunca tenha tirado o pe do Brasil e tambem tenha um fogao a gas na cozinha, ainda conserva algumas caracteristicas bem marcantes no que diz respeito a culinaria: faz polenta no tacho, pao caseiro, usa ingredientes sazonais (todos vindos do quintal enorme que ela tem em casa), da preferencia a cardapios tradicionais ao inves daqueles cheios de novidades e iguarias da moda. Uma maluquice, a julgar pelo tanto que temos evoluido nos ultimos anos, quando se fala de de gastronomia ou mesmo de cozinha regional.
Ao contrario de todas as avos que conheco, nunca teve na cozinha os seus melhores predicados. E cheia de boas intencoes, mas tem coisas que prepara que nao consigo provar nem com reza braba, mesmo sendo super curiosa com relacao a comida. Lembro de uma vez - quando ainda era crianca - quando tive que fazer um sacrificio para experimentar cascas de batatas fritas, e de tentar encontrar alguma similaridade entre as tais cascas com as proprias batatas. Foi impossivel, aquilo pra mim eram cascas e pronto. E olha que sou pouco exigente com batatas fritas, ja que nem sou fa. Com certeza nao foi dai que herdei o paladar refinado. Mas foi na horta e pomar sempre bem conservados que aprendi a colher cenouras e rabanetes, a identificar um pe de alecrim entre os de salvia, a apanhar morangos e figos, a diferenciar aracas de guabirobas. Ja comi cereja e ervilha torta colhidos no mesmo instante. Ja fritei ovos recem-postos. E a minha infancia inteira foi assim: entre pes de tomate e o galinheiro, entre a serraria (de onde vinha a lenha que abastecia o fogao) e massas de pao.
A primeira comida que aprendi a fazer sozinha foi arroz branco. Eu cozinhava o tal arroz para acompanhar um frango xadrez que o meu pai preparava, quando tambem comecou a se aventurar na cozinha, muito antes de ser o gastronomo que e hoje. Foi ai, tambem, que ganhei meu primeiro livro de culinaria. Lembro que, mesmo sendo crianca, achei meio simples demais: pra quem ja aprontava comida fresquinha, preparada no fogao, os sanduiches de atum pareciam muito pouco desafiadores. Naquela epoca eu so tinha sete anos de idade, nos dois evoluimos muito desde entao. O frango xadrez ainda da o ar da graca de vez em quando. Mas eu ja fui "promovida" ha muito tempo: tenho outras responsabilidades - como preparar a entrada ou a sobremesa - em vez de apenas tomar conta do tal arroz.
Desde aquela epoca meu interesse pelo mundo da cozinha so cresceu. Nao me contento mais em preparar um prato sem conhecer um pouco sobre a historia dos alimentos, sobre a origem de cada uma das iguarias que constituem a refeicao. Embora tenha dezenas de livros de culinaria, continuo abastecendo a minha biblioteca com compras impulsivas. Leio revistas que tem como publico-alvo donos de restaurante, bibliografias de cozinheiros, flogs escritos por outros gastronomos caprichosos. Sou criteriosa ao escolher um lugar pra comer. Nao como nada que seja sofrivel ou insosso. E por ai vai.
E foi assim. Desde ajudar a ajudar a escolher feijao ate fazer massa de talharim em casa, fui, aos poucos, me apaixonando. Nao sei dizer quando isso aconteceu exatamente, mas nao me importo. Ja sou bem feliz assim!
Juliana.
25 fevereiro 2006
24 fevereiro 2006
21 fevereiro 2006
I'm lovin' it
[Loja de artesanato em Camden Lock Market]Mc Donald's que me desculpe, mas fui obrigada a pegar o slogan emprestado. Cada vez que vou a Londres e assim: sinto falta de ar, tenho tremedeira, palpitacao, meu coracao dispara. Sintomas de transtornos mentais e panico? Nao, nao. Amor mesmo. E olha que ja dura - pelo menos - sete anos!
Apesar de morar a apenas cem milhas de distancia, minhas idas a Londres nao sao muito frequentes, infelizmente. Parece bobagem minha, mas no final das contas o pacote todo acaba ficando muito caro mesmo: um tiquete de metro (mais onibus e trem) para viajar um dia todo nas zonas centrais da cidade, custa metade da minha passagem de onibus para la; opto por ir de trem as vezes, e acabo pagando mais caro pelo conforto e pela uma hora a menos de percurso; os hoteis sao outra grande despesa, chega a ser um sacrificio pagar tudo aquilo. E por ai vai: nas atracoes turisticas, no museu mais desqualificado, no espetaculo mais requintado, em tudo se desembolsa alguma coisa. E num pais onde se paga caro ate por agua mineral, podem apostar que qualquer custo adicional e capaz de desfalcar orcamentos.
Tirando a parte de quase me levar a bancarrota - "Londres e um mau habito que se odeia perder", como disse um Anonimo qualquer -, ela inspira, ilumina, diverte, emociona. Embora ja tenhamos bastante intimidade uma com a outra, ainda leio guias, ando com mapas na bolsa, descubro coisas novas. Na semana passada, por exemplo. Passei o sabado em Camden Lock, que e um mercado que vende de tudo: roupas usadas, objetos antigos, artesanato, utilidades domesticas, bijuterias, livros, pirulitos de maconha, comidas enlatadas vencidas. Alem de ter a maior concentracao de punks por metro quadrado da cidade.
Camden e o tipo de lugar onde eu poderia passar a tarde toda sentada num banco de praca, lendo um livro e observando o ambiente. No pouco tempo em que fiquei sentada almocando, por exemplo, consegui perceber que as pombas de la sao mais alienadas que as de Cheltenham. As que temos aqui tambem sao meio doidas, nao posso negar. Um dia eu estava andando na calcada - voltando do trabalho - e uma dessas loucas ficou se trancando no meio das minhas pernas: tanto reinou em volta de mim que acabei dando um chute nela. Sem querer, mas chutei. E ela ainda ficou me olhando com aquela cara de quem nao gostou. Ah, me poupe.
Entao. As pombas de Camden ja sao mais atrevidas: tentam "decolar" e levar os guarda-sois da praca de alimentacao junto com elas. Como nao conseguem, claro, aterrisam de volta no colo de quem esta almocando sentado embaixo deles. Ou elas sao cegas, ou retardadas, ou e coisa daquele tal pirulito. Mas burras elas nao sao. Sao pombas, eu mesma vi.
Tem outro lugar que eu adoro em Londres, e que, por coincidencia tambem e um mercado. Covent Garden Market e muito mais elegante: tambem tem pombos, mas mais civilizados. E, ao inves de barracas de bugigangas, e cercado de lojas, cafes, restaurantes e artistas de rua. La e o tipo de lugar pra ir sem pressa, porque provavelmente se perde a tarde toda: freneticos nao tem vez no Central Market. O ideal, mesmo, e conseguir uma mesa. Elas sao disputadissimas, mas vale o sacrificio de ficar em pe esperando. Estando sentado (do lado de fora do restaurante, por favor!), e obrigatorio tomar vinho espanhol, comer queijo frances, pensar na vida. E ficar la um tempao, senao nao tem a minima graca. Se der sorte de ter alguns musicos se apresentando pelas redondezas, melhor ainda. As bandas nem sao das melhores, mas a atmosfera e tao magica que ninguem perde tempo analisando se elas sao harmoniosas ou nao. E olha que nem e culpa do vinho. Falo por experiencia propria.
E tai um pouquinho de Londres. Que tambem tem engarrafamentos, linhas de metro que sao fechadas para manutencao nos finais de semana, velhinhos mal-educados (sim, sim, eles estao por aqui tambem, qualquer dia vao dominar o mundo!), guardas municipais simpaticos, pombas malucas, camelos cor-de-rosa. Camelos? Ah, sim. Eu tinha um vizinho paulistano que dizia que Sao Paulo e legal, porque la e possivel encontrar um camelo cor-de-rosa pra vender, a qualquer hora do dia, inclusive no meio de madrugada. Na capital britanica tambem podemos encontrar o tal camelo com facilidade, mas com uma pequena diferenca: em vez de um so, a gente encontra uma cafila. Afinal, como nao poderia deixar de ser, Londres e mesmo a cidade mais cosmopolita do mundo!
E a sortuda aqui nao poderia estar escrevendo em melhor hora: amanha bem cedinho pego o trem para Londres. Vou passar o dia todo trabalhando la, mas nao me importo: vou me arrumar bem bonita mesmo assim. E o minimo que ela merece!
B-e-i-j-o!
Juliana.
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